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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Piquenique na tempestade de neve




Quando eu só conhecia areia e sol, eu tinha medo do inverno canadense. Um amigo meu que na época morava em New Jersey tentava me convencer que o inverno não era bicho de catorze chifres (sete cabeças). Quando eu comentei sobre o caos que estava na Inglaterra por causa de neve, ele me disse que é porque lá neva pouco e eles não têm estrutura para isso, ao contrário do Canadá. A frase dele era mais ou menos assim: Quando cai uma nevezinha na Europa, é o fim do mundo. No Canadá, se cai uma tempestade de neve o canadense vai fazer piquenique no parque. C'est sûr et certain/é seguro e certo que se trata de um exagero, mas nem tanto.
A Lara tinha um aniversário para ir. A casa da amiga dela fica fora da cidade, bem longe. Olhei pela janela e vi que São Pedro estava dormindo e o Windows do computador dele que controla o clima estava travado, mostrando aquela telinha azul linda que todo mundo adora. Vamos lá? Ninguém disse que não, então vamos!
Mas que cearenses atrevidos, viu? Caia uma baita tempestade de neve, ou como dizem os québécois, tempaaaeeeiiite de naaaeeeiiige. A neve era fina mas caia como que jogada de balde. O vento estava bem forte, o que causava um poeiral de neve ou, como se diz em francês mas somente no Québec, poudrerie. O vento jogava a neve gelada no rosto, mas rapidinho chegamos no carro. O carro está um chiqueiro! Não é só de neve. Tem lama da areia que jogam para dar mais aderência à pista. Com o vento então, os bancos ficaram cheios de neve. Acrescente mais 10 minutos de raspagem mínima do gelo grudado nos vidros (curtindo a "brisa") para poder digirir, mesmo assim vendo tudo borrado.
Para sair então, estanquei de cara. a neve acumulada segura o carro. Também se acelerar mais que o necessário, o pneu patina e o carro não sai. Para sair do estacionamento que fica no andar superior, tem uma curva em descida. Se não tiver cuidado, o carro deslisa e bate na quina do prédio.
As ruas principais estavam com menos neve por causa do eficiente serviço de déneigement/remoção de neve de Québec, mas as outras estavam com neve raspando embaixo do carro. Algumas transversais ficam com uma parede de neve na curva por causa da neve raspada pelos caminhões do déneigement. Nas saídas, dá para passar de primeira a quinta com o carro quase parado. Inclusive, quanto mais aceleramos, menos o carro anda. Nas curvas, além de não vermos por causa da falta de limpeza do vidro lateral, se não tivermos cuidado o carro derrapa e sai da pista ou bate no carro ao lado. O bizu é baixar e subir os vidros laterais para limpá-lo. Quanto a derrapagem, só praticando mesmo. E onde é que está a pista mesmo, hein? Será que eu estou na contra mão? Para completar, gruda gelo nos limpadores de parabrisa. Para evitar, o bizu é colocar ar quente na saída de ar perto do parabrisa (desembaçador). O vidro quente derrete o gelo dos limpadores e este volta a limpar mais que sujar.
Na ida, a visibilidade estava bem ruim e pegamos uma estrada. Depois fomos levar o Davi para brincar no shopping. Quando saímos de lá para pegar a Lara, aí é que estava pior mesmo porque já estava de noite...quero dizer, de dia mas estava fazendo preto, não, não! Isso é como se diz em francês (il fait noir). Estava escuro, mas de dia em plenas 16h30 da tarde. Bom, agora acho que dá para entender.
A ruazinha da casa da amiga da Lara parece que nunca viu uma pá na vida. A neve estava mais alta que a parte de baixo do carro. O desmiolado aqui, ao invés de parar na esquina e ir a pé já que era bem perto, resolveu ir de carro e ainda fazer a manobra para retornar no meio da rua. Resultado? O carro atolou, claro! Depois de uns bons vai-e-vens (será que é assim o plural dessa palavra composta?), consegui tirar o carro. Existem uns kits para desatolar carros. É tipo uma esteira para colocarmos debaixo dos pneus. Custa 20$ e acho que vale a pena, mas perde a graça! Claro que temos que andar com uma pá no porta malas. Ao menos isso eu comprei.
O começo da nossa rua é uma ladeira da cidade baixa para a cidade alta. O carro quase que não subia. A chegada em casa é que foi ainda mais legal. Abri a cancela e quem disse que o carro ia para frente? Voltei um pouco e aí, se arrastando como uma tartaruga ele foi. Só que o nosso estacionamento fica no andar de cima, com uma rampa inclinada e em curva. Quanta engenharia para o inverno! Ao menos o carro do canto depois da curva não estava lá porque ou o carro sobe mas deslisa de lado e passa por essa vaga, ou nem sobe! E foi o caso. Eu tive que tentar e voltar umas 6 vezes para cavar o caminho para que o carro pudesse subir. Tinha mais que um palmo de neve fofa acumulada. Fofa no sentido próprio! Nessa hora eu não estava muito carinhoso com ela. Vejam na foto o rastro que o carro cavou que é fundo mesmo sem ter chegado no chão.

Hoje eu aprendi algumas lições sobre carros para o clima daqui. Freios ABS são muito importantes e meu carro é um dos raros que não os tem. Tração nas quatro rodas não é luxo e nem só para quem faz off road; Carros grandes também não. Eles são mais pesados e afundam mais na neve fazendo contato com o asfalto, mesmo tendo pneus mais largos e que melhoram a aderencia; Carros sedan têm a desvantagem de não poderem ter o limpador do vidro traseiro, que é bem recomendável para essas situações. Vidros elétricos facilitam a limpeza dos vidros laterais e comemos menos neve nessa manobra. O meu também não os tem! A trava mecânica das portas congela e não abre enquanto que a elétrica não tem esse problema. Para isso, compramos um degelante no Canadian Tire. Já está no nosso planejamento trocá-lo por um SUV (sport utility vehicle)/VUS (véhicule utilitaire sport)/VUS (pau pra toda obra) no próximo ano.
Vocês são uns loucos! Sim, somos! Mas a rua estava cheia de outros loucos. O estacionamento do shopping estava cheio (confiram no vídeo). Os pilotos canadenses voam com nevasca. Enfim: todo mundo aqui é louco. Como digo sempre, não tem clima que impeça o québécois de sair de casa e ter sua vida normal, faça chuva congelante, faça sol de onda de calor. Ficar trancado em casa o inverno todo também deixa qualquer um louco. E sabe de uma coisa? Adoro fazer rally na neve. Acho que depois dessa eu tirei a minha carteira de inverno. E de quebra, ainda fico com mais uma história para contar para vocês!