A saga de uma família de retirantes cearenses, comedores de rapadura, rumo à terra onde a Cana dá.
Fortaleza -> Ceará -> Brasil -> Canadá -> Quebéc -> Québec
O show do Aerosmith no começo corria risco de furar. A voz do Steven Tyler poderia não estar boa para o show por falta de repouso suficiente depois do show que antecedia o Festival d'été. Mas os organizadores do evento mudaram as datas e disseram que tudo estaria sob controle. Lembrei-me logo da falta de agudos do Jon Bon Jovi que foi comentado até pelas cabeleireiras quando estavam cortando o meu cabelo. "Não foram só vocês músicos que notaram! Todo mundo percebeu!", disse uma. Mas o caso do Bon Jovi é crônico e não agudo (que trocadilho infame!).
Mas ao contrário dos meus receios, o cara mandou ver bem durante todo o show. Mesmo não tendo músicas que gosto tanto quanto as boas do Bon Jovi, o Aerosmith mostrou uma consistência e homogeneidade do começo ao fim. Nada mal para uma banda que está na estrada há QUARENTA E DOIS ANOS!!!!!
O baterista fez um solo de duração considerável que por um lado agradou o público, mas percebi nitidamente um cheiro de Neil Peart (baterista do trio canadense Rush) no ar. Faz de conta que não vi, ou não ouvi.
Mais uma vez utilisei a estratégia de quem não quer se desgastar muito e ainda apreciar o espetáculo. Chego perto da hora do show e fico perto do telão grande mais longe do palco. De qualquer forma, quem não fica bem perto do palco acaba vendo somente formiguinhas tocando. E assim ainda fico perto do ponto de venda de cerveja, dos banheiros e nem fica muito cheio de gente. Perfeito: entra cerveja, sai cerveja.
Não deu certo para eu ir ao show do The Offspring, que parece que foi muito bom. Mas é o terceiro Festival d'été que participo que vale muito a pena, principalmente considerando que 50 ou 65$ de ingresso para os 11 dias é muuuuito barato.
Acho que ainda não falei aqui, mas eu tenho uma banda. Na verdade, eu tento ser guitarrista e até tenho uma guitarra em casa, mas como o baixista tem uma bateria e faltava alguém para tocar nela, fui preencher a vaga. Não sou lá o melhor baterista do mundo, mas dou minhas cacetadas.
Comecei a postagem falando isso para dizer que por tocar em uma banda de rock, o Festival d'été para mim é mais interessante ainda. Também citei porque uma música do repertório da banda, que inclusive tocamos em uma festa brasileira, é do Bon Jovi. Se chama "You give love a bad name".
Nada mais lógico que eu ir conferir ao vivo a banda que fez sucesso durante minha adolescência nos anos 80. O local do show estava lotado, mas não tinha a seção F que fica atrás do palco como nos shows dos anos passados que chegaram a ter 130.000 pessoas. Inclusive, aconteceu de fecharem as entradas e alguns terem ficado de fora, o que eu não sabia que poderia acontecer. De qualquer forma, cheguei cerca de meia hora antes do show e entrei.
Esse foi o set list:
Raise Your Hands
You Give Love a Bad Name
Born to Be My Baby
We Weren't Born to Follow
Lost Highway
It's My Life
Captain Crash & the Beauty Queen From Mars
Runaway
I'll Be There For You
Wanted Dead or Alive
(with Happy Birthday (sung to Richie))
Keep the Faith
We Got It Goin' On
Have a Nice Day
Someday I'll Be Saturday Night
Who Says You Can't Go Home
Bad Medicine / Old Time Rock & Roll / Shout
Encore:
In These Arms
I'll Sleep When I'm Dead
Livin' on a Prayer
Encore 2:
I Love This Town
Tem músicas nessa lista que eu gosto muito, mas tem uma boa parte que eu particularmente achei meio sem graça, como que para preencher álbum. Com três décadas de carreira, acho que eles poderiam preencher duas horas e meia com mais músicas empolgantes. E não é porque eu não conhecia muitas delas porque "Raise Your Hands", por exemplo, eu nunca tinha ouvido e gostei.
Como banda, eles ainda tocam muito bem. O Jon Bon Jovi perdeu um pouco dos agudos de forma que ele deixa de cantar algumas partes e faz careta em outras. Eu conseguia cantar o que ele cantava sem fazer caretas. Vale ressaltar que a mulherada deve achá-lo fazendo careta muito mais bonito que eu fazendo pose! Uma delas laçou-o com uma espécie de cachecol e papocou um beijo na boca dele. Não foi tão forçado assim. Acho que ele deixou.
O Richie Sambora, guitarrista, continua tocando muito bem. Ele foi mais um dos vários que me fizeram continuar brigando com a guitarra durante todos esses anos. De quebra, ao contrário do "João Bom Jovem", continua com os agudos que tinha e que segura a peteca dos vocais.
Enfim, foi bom e coloquei mais uma banda que gosto na minha lista das eu-vi-antes-de-acabarem. Mas se eu conhecesse o set list e condensassem as que eu gosto durante primeira hora, eu voltaria para casa mais cedo para dormir.
O que? Você não sabe quem é John Fogerty? Eu também não sabia! Mas basta dizer que ele era compositor, cantor e guitarrista do Creedence Clearwater Revival. Piorou? Hum...Pois veja os vídeos que vais reconhecer duas músicas deles (Pretty Woman foi uma das poucas do show que não é dele). O CCR é a típica banda que tem muitas músicas conhecidas, mas que poucos sabem de quem são. Pior ainda quando as músicas são mais famosas por intermédio de outros como o Rod Stewart e a Bonnie Tyler que cantaram "Have you ever seen the rain?".
Começando pelo começo. Quando cheguei para o show, pela primeira vez vi pouca gente e pude ficar perto do palco. Só então pude perceber uma vantagem considerável em relação aos telões: A amplitude. Nos telões, vemos as imagens bem maiores que o palco longe, mas são mais focadas e restritas. Já olhando para o palco, vemos menor mas toda a cena ao mesmo tempo.
Antes da atração principal, teve uma banda legal chamada The Sheepdogs que tinha toda a sonoridade e o visual dos anos 70. Uma verdadeira volta no tempo, pois conseguiram reproduzir fielmente a ambiencia musical da época. Infelizmente, ao final do show deles, minhas costas e meus pés já estavam detonados da maratona. 1,5Km de caminhada em subida íngreme até o show, com mais a volta. No dia anterior, fiquei seis horas em pé durante o show das três bandas.
A atração principal começou seu show. Apesar das décadas de carreira, o camarada ainda tem muito gás para o palco, fez a maioria dos solos e sua voz está perfeita. Curiosamente, na décima quarta música que diz "I wanna know have you ever seen the rain comming down on a sunny day"/"Eu quero saber se você já viu a chuva cair em um dia ensolarado", começou a chover e era chuva de verdade como podem ver no vídeo. Depois de mais duas músicas, completando dezesseis, resolveram parar o show enquanto a chuva passava por questões de segurança. Poucos dias depois, a estrutura de palco de um festival em Ottawa desabou por causa de uma rajada de vento. O pessoal daqui sabe o clima que têm!
Eu já estava com as costas e pés acabados, estava chovendo muito, já tinha visto dezeseis músicas e resolvi voltar para casa para me preparar para a nova semana de trabalho, pois era domingo. Depois de 10 minutos de pausa, ainda tocou mais outras doze músicas. Mas de qualquer forma, já valeu a noite por colecionar mais um nome que fez a histórica da música. Até o Festival d'été de 2012! Quem serão as atrações?
A loucura começou bem antes do show. Os mais malucos acamparam na noite anterior para guardar os lugares mas próximos da entrada, e assim garantirem as suas partidas antecipadas para ocuparem os melhores lugares perto do palco. Quem chegou até duas horas da tarde mais ou menos conseguiu entrar, mas ficaram entalados na entrada sem ver nem mesmo os telões. Eu cheguei lá para as seis horas e vi uns três quarteirões de multidão ocupando quase a largura da rua toda, iludidamente pensando que entrariam no espaço principal. Mais uma vez me surpreendi ao ver que não tinha nada delimitando a largura da fila, mas mesmo assim havia uma faixa lateral na rua desocupada e ninguém furava esta. Nesses casos, esperava que as menores distancias livres fossem ocupadas primeiro. Mas na rua, quem quisesse poderia furar a fila. Ao menos teria acesso físico! Se o pessoal iria gritar alguns sacres/palavrões québécois eu não sei.
Eu já sabia que iria para a zona F, uma região grande mas que fica por detrás do palco e que tem somente um telão. Melhor assim. Era menos tumultuado e não conseguiria ver o palco de qualquer maneira se estivesse nas região das outras seções. Impresionante é que mesmo em um show de rock pesado como esse, ainda assim tinha carrinhos de bebês e crianças acompanhando os pais.
Acho que já chegou a hora de dizer que depois de uma banda québécois e antes do show do Metallica teve a apresentação do Joe Satriani. Coitado! É um exímio guitarrista, fez uma bela e profissional apresentação, mas foi brutalmente ofuscado pelo brilho metálico. Eu fiz o mesmo aqui nessa postagem para dar mais realismo. Acho constrangedor ver que a maior vibração da galera não foi durante seu show mas quando ele disse quem seria a próxima atração. Pauvre toi!/Coitado de ti!
Já a atração principal fez cerca de duas horas e meia de show detonante. Os principais hits da sua carreira fizeram a multidão de 115.000 metaleiros (alguns senhores e crianças não eram tão metaleiros assim) ir à loucura. "Era meu sonho vivenciar isso aqui", disse James Hetfield, vocalista e guitarrista. "Meu também!", disse o comedor de rapadura brasileiro de nome russo que mora no Canadá. Não encarei o que ele disse como o puxa-saquismo tradicional movido pelo marketing. O que acho que ele quis dizer é que é um privilégio de poucos músicos poder sentir a energia de uma maré de gente gritando e se agitando como a que ele viu.
Como no conto de Cinderela, meia noite acabou o show porque regras são regras. Mas eles ainda passaram muito tempo agradecendo, aplaudindo o público, jogando palhetas e baquetas e se despedindo.
Mais uma vez, todo mundo saiu devagarzinho, educadamente e sem empurrar. Apenas uns gaiatos de plantão cantando alto as músicas brego-românticas do Eric Lapointe (que se apresentou também em outro dia) e fazendo piadas. E eu, de sorriso de orelha a orelha, colecionei mais um show inesquecível propiciado pela nossa capital do metal que faz parte das rotas das grandes atrações musicais.
N'importe quoi...
Je t'appelais dans la nuit...
Pour te dire...
N'importe quoi...
(letra da música do Eric Lapointe)
É a segunda vez que vou ao imperdível Festival d'Été. Dessa vez o laissez-passer/passe livre que dá direito a todos os shows dos 11 dias custou 65$. No ano passado ele custou apenas 50$. Os amigos equato-brasileiros Carlos, Ângela e seu filho vieram de Montréal para conferir seu ídolo, Sir Elton John.
A exemplo da outra atração principal, o Metallica, tinha algo entre 100.000 e 120.000 pessoas na área cercada dos Plaines d'Abraham. Ficamos na seção F, no alto que fica atrás do palco. Embora não pudéssemos ver os músicos no palco (na frente mas longe também não seria tão diferente), tinha um dos vários telões perto e através dele que assistimos tudo. Em compensação, estávamos em um lugar tranquilo para ficar com as crianças, como em um piquenique: Cobertures na grama, lençol, comida, joguinho, etc. O volume do som nessa seção não é alto, logo, eles não se sentem incomodados. Não fomos os únicos. Facilmente encontrávamos carrinhos de bebês e muita gente fica é sentado na grama mesmo.
Acredito que o show teve duração de duas horas e meia e foi uma amostra das melhores músicas da carreira do cantor inglês. É a fórmula perfeita para recordação eterna dos fãs. Começa pouco depois de escurecer, que nessa época acontece por volta das 21h00 e vai até o limite de meia noite. Tanto na entrada quanto na saída teve filas, mas estas fluiam sem empurrões nem confusão, bem canadense.
É bom saber que mesmo com filhos, dá para curtir shows com um mar de gente sem confusão, na tranquilidade e com segurança.
Foi aberta a temporada de atrações de rock do verão de 2011, mesmo que o verão ainda não tenha chegado! Nem estou pesquisando e só pegando uma notícia aqui e outra ali, já tenho uma lista de atrações que vão passar pelo Canadá pas mal/nada mal! Vejamos:
Mais uma vez, tive o privilégio de assistir o show de outro dinossauro do rock dos anos 70, gênero musical que gosto bastante. Dessa vez foi o Deep Purple.
Coisas que ainda acho esquisito em um evento desses: começar às 20h00, estar ainda claro e já estar em casa às 23h30. Afinal, como disse o meu colega de trabalho, os moradores da região têm o direito de dormir! Outra é estar com 9°C e ver os músicos de camisa (t-shirt). A camisa do Steve Morse não tinha mangas. Outra coisa que também achei curioso foi o fato de ter uma orquestra tocando com a banda durante o show todo.
No vídeo está um pouco difícil de perceber, mas dá para ver o topo do Chateau Frontenac atrás do palco, como se fosse um pano de fundo. Bela paisagem para dar um clima especial às músicas. Foi uma feliz descoberta saber que estamos na rota de grandes atrações e que agora temos oportunidade de presenciar esses espetáculos.
Quem é fanzão do trio de rock progressivo Rush sabe que esse título é código morse e que significa YYZ. Este código transcrito para uma partitura vira a introdução da música de mesmo nome. E assim começa a minha simpatia pelo Canadá, ainda na adolescência, enquanto eu tocava algumas músicas deles com a minha primeira banda.
Quando a perspectiva de vir morar aqui ficou mais concreta, meus amigos começaram a perguntar: E ai? Será que vais poder assistir a algum show do Rush? Se der certo... E também descobri que YYZ é o código do aeroporto de Toronto, quando procurava voos para cá.
Pois bem, deu certo! E mais fácil, barato e rápido que o que eu imaginava. Foi meu presente, exatamente no dia 15 de julho, quando eu completei 6 meses de Québec. Nossa! Como passou rápido! Daqui a pouco faremos um ano aqui.
Por falar em meio ano de Canadá, a ida ao show me lembrou algumas coisas do Brasil, resalvando as devidas proporções! Ônibus cheios. Pela primeira vez vi ônibus realmente cheios, porém, dava para ficar apenas com contatos ocasionais e não amassado. E o motorista determinou que o mesmo que estava lotado e nem abria mais a porta. Fazia um calor desgraçado, mas para os padrões daqui. Tinha engarrafamento, pessoas desrespeitando a faixa prioritária de ônibus e táxis, mas só até uma certa distância da área do show. Tinha molecagem dentro do ônibus, mas muito mais branda que a que conheço. No local, latas de cerveja e garrafas pelo chão, sim! Aos montes! Afinal, show é show. Bom, enfim, nada que eu não esperasse ou que me decepcionasse. Apenas avisando que aqui não é um lugar de robôs pré-programados para serem super certinhos. Gente é gente no mundo todo. Mas quando cheguei nas imensas filas sendo respeitadas, percebo que realmente não é a mesma coisa. Mas a discussão de povo alegre ou frio e certinho ou errado fica para outra postagem. Plaines pleins/Planos (d'Abraham) cheios e sem chuva. Perfeito para um show de 3 horas! Quack! Nem sabia que existiam shows tão longos assim! Só assim dá para tocarem as melhores músicas dessas mais de quatro décadas de carreira. Nada mal, hein?
O Geddy Lee (o vocalista, baixista, tecladista e outros istas) começou falando uma frase em inglês e outra em francês. E eu lá pensando: Que legal! Os discursos do primeiro ministro parece que são alternados assim também. A visão do Canadá neutro, bilíngue, respeitando a diversidade! Bullshit!/Pø##4 nenhuma! Logo em seguida ele diz em inglês: Desculpem! O meu francês é ruim! Que decepção! O cara mete uns trechos em francês nas músicas, gravaram um dos albuns mais conhecidos aqui no Québec, culto, canadense e com um bocadinho de primaveras. Eu jurava que ele falava francês! Isso depois de ter ouvido o Bruce Dinkson (vocalista do Iron Maiden) que é inglês falar pelos cotovelos em francês, deu vontade de chamar o Geddy Lee de Jegue Ali!! Mas deixando de ser cri-cri, nesse show tinha muita família inclusive com crianças sentados em toalhas como em pique-nique. Tinha até bebês! Realmente um ambiente tranquilo.
A única brabice que fiz dessa vez foi entrar na fila da barraca da Molson Dry. Sabia lá o que era isso! Estava fazendo calor e eu queria tomar um refrigerante. Chegando perto é que o desconfiômetro alertou. Mas já tinha passado um tempão e estava com sede, agora vou beber, seja lá o que for! Era cerveja! Eu sei! Eu sei! Nada demais! É que não costumo beber, com meia lata o chão já está balançando sem terremoto e com a lata terminada, já me sinto surfando no Havaí. Mas fiquei paradinho e deu tudo certo. Não tropecei em ninguém.
Na volta, a mesma coisa do outro show. Muita gente nas ruas e nos bares, restaurantes e afins da Grande Allée, e um passeiozinho a pé para casa, afinal, esse caminho deserto já é seguro, ainda mais cheio de gente.
Não fui aos shows do Billy Talent (Canadá), Santana, Black Eyed Peas e Rammstein (Alemanha), mas o Dream Theater, Iron Maiden e Rush, dos quais eu sou fanzão há muito tempo, foram inesquecíveis. Afinal, tanto as tristezas quanto as alegrias fazem a nossa vida de imigrante ser mais intensa.
Malade!!!/Irado!!! 11 dias de shows de várias bandas, dentre elas, as atrações internacionais Iron Maiden, Dream Theater, Rush, Santana e Ramstein. Muita gente, muita energia, muito metal na veia (não confundam com véia!) e tudo isso por apenas 60$ + uma garrafa! Depois eu explico o lance da garrafa.
Quando eu tinha lá meus 15 a 16 anos, era fanzão do Iron Maiden e do Rush. Alguns anos depois, o Dream Theater. Quem é de Fortaleza sabe que esta não entra nas rotas das grandes bandas, logo, assistir shows de nossos ídolos era algo meio utópico, a não ser que pagasse para ir a São Paulo, por exemplo, para assistir ao show. No meu caso, estava já conformado que nunca teria esse privilégio.
Como diz a propaganda, realizar esses sonhos adormecidos desde a adolescência não tem preço!
Voltando ao show, choveu quase os dois shows todos, mas eu achei foi bom. Como vocês já sabem da postagem da canicule/onda de calor, aqui está fervendo. Ainda é meio esquisito para eu que cheguei no meio do inverno sair à noite de sandálias, bermuda e camisa. Levei o casaco de chuva, mas deixei-o amarrado na cintura para poder curtir a chuva. É uma filosofia que peguei desde quando encontrei a frase "Some people feels the rain, other just get wet"/Alguns sentem a chuva. Outros somente ficam molhados". Pois bem, lavei a alma!
Estou aqui há praticamente meio ano e ainda tive um bocado de choques culturais em uma só noite. Vi um policial derramando uma garrafa de bebida alcólica de uma mulher. Segundo o meu colega de trabalho que estava no show, é proibido beber em locais públicos. Eles são tolerantes a essa lei, mas se perceberem que está passando do ponto e que pode virar um problema, eles tomam. Se fizerem baderna, ai sim, a pessoa pode ser presa e enquadrada por essa lei. Dentro do imenso espaço de shows, no Plaines d'Abraham, as pessoas podiam comprar e consumir bebidas. E até encontrei gente caido de bebada. Mas mesmo assim, três horas de shows, 80.000 pessoas (a cidade só tem 500.000!) e nenhuma confusão! Incrível! Por isso é que tinham até crianças e pleno show de heavy metal. Essa outra nem é choque cultural, apenas que eu não ia a estádios no Brasil para saber. Fui com uma garrafa de alumínio e tive que deixá-la na entrada. Pensei que fosse por causa do conteúdo mas a mulher me disse é que ela poderia ser arremessada. Ops! O ingresso ficou 9$ mais caro, mas está ainda muito barato.
E os choques continuam. Esperei até a lasanha ficar pronta, e sai sem tanta pressa, contando que o show ia atrasar ao menos meia hora. Que nada! Perdi meio show do Dream Theater!! Calvaire!!/$?%$#*@!! Meu colega explicou: O show tem que começar na hora porque tem que terminar na hora. Os moradores da região têm o direito de dormir! Ahh e aqui lembram também de quem quer dormir?!?! Aviso aos navegantes: Salle d'eau/Sala de água, mesmo que tenha os simbolozinhos padrão de banheiros, só serve para lavar as mãos e se pentear. O resto é nas cabines. Outra coisa legal é o lasse passer/deixa passar, que é um broche que tem uma luz vermelha piscando e que faz um efeito muito legal quando está escuro e vemos um mar de vagalumes vermelhos. Também igualmente interessante é o mega-telão imenso que tem mais longe do palco, além dos outros três, acho. O show correu risco de se cancelado se tivesse raios, mas São Pedro deu uma forcinha para que tudo desse certo e mesmo a volta para casa, que podia complicar por causa de tanta gente ao mesmo tempo, foi moleza. Afinal, o que são dois kilômetros para quem passou um bom tempo andando kilômetros na neve fofa com as botas pesadas todo dia?
Outra coisa que me surpreendi foi que o Bruce Dinkson, vocalista do Iron Maiden fala francês! E não é aquele lance de falar algumas frases decoradas. Ele conversou bem com o público. Só faltou avisarem para ele que aqui ninguém fala "irrrón medém" com a pronúncia afrancesada como na França. Aqui, em geral, se pronuncia as palavras do inglês em bom inglês. "Le cœur du metal canadien est au Québec!/O coração do metal canadense está no Québec!". Vocalista tem que fazer um marketingzinho sendo puxa-saco, né?
Foi bom descobrir que Québec, apesar de pequena, tem seu espaço nesta vasta América do Norte. Até porque é a capital da maior província em superfície e a segunda maior economicamente. Senão, ia dar trabalho para eu realizar mais esses sonhos. Se no show eu senti saudades dos cabelos até o meio das costas que cortei pouco antes de vir para cá? Sim! Claro! Mas mesmo assim pude gritar MetAAAAAAALLLLL!!!!