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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Abrigo do carro


Segunda-feira preguiçosa e gelada. Você sai atrasado para o trabalho e ao invés de ver o seu carro, você encontra um sorvete. O seu carro deve estar lá embaixo, mas vais ter que tirar a neve para poder dirigir. Pior é que você descobre que tem gelo grudado no para-brisa e é daqueles que não dá para raspar. Esse episódio de Têtes à Claques faz uma sátira do inverno mostrando uma cena dessas. Daí, você tem que pacientemente esperar o desembaçador derreter o gelo para poder sair.

Mas os seus problemas se acabaram com o abrigo de inverno Tabajaras! Conheci esse mais que útil amigo dos atrasados-por-causa-das-crianças-sonolentas quando compramos a nossa casa. O antigo dono nos deixou de presente e ainda me chamou um dia para me ensinar como montar e desmontar. Um anjo de pessoa esse cara. Quando fui montar no outono, tive dificuldades. Imagine se não tivesse visto montado e com explicações!

Além do carro ficar sem neve nem gelo, também reduz a área de acúmulo de neve para limpar. Quando mais perto da rua, maior a economia, embora exista um limite mínimo definido por lei, talvez por causa da visibilidade. O meu vizinho colocou o dele quase na rua e talvez o trator que raspa a neve da rua cause algum dano. Outra questão legal é que existe uma parte do ano que compreende o inverno na qual é permitido ter esse abrigo montado, mas não pode ficar durante o ano todo. Acho que por questões estéticas, mas realmente não sei.

Depois de uns dois invernos, ficamos maceteados e monto o nosso abrigo sozinho. Mas recomendo fortemente comprar uma furadeira/parafusadeira com adaptador para porca borboleta sob pena de acabar os dedos nas várias dezenas de parafusos. É de suma importância deixar o abrigo bem preso e firme sob o risco de tê-lo sobrevoando os EUA em caso de ventos de 80Km/h. Para isso, existem blocos de cimento de tipos diferentes em lojas tipo Rona e ancoragem para prender ao solo no Canadian Tire como essa daqui, usadas com cintas de catraca como essas daqui.

Como hobby de fotografia, fiz um timelapse para mostrar em poucos segundos a montagem do abrigo que leva algumas horas. Tenham uma boa preparação para o inverno!


domingo, 6 de novembro de 2011

Bateram no nosso carro!


-Alexei, bateram no nosso carro e a bateria está acabando!
-Quack!!!

Batida já é por si só algo estressante. E em um país onde tudo é diferente, para resolver o problema em um idioma novo é ainda mais estressante. Graças a Deus, ninguém se machucou, o que já é um grande alívio.

Na verdade, essa é a quarta vez que batem em um carro nosso nesses um ano e dez meses que estamos aqui. Os québécois são muito habilidosos para dirigirem em alta velocidade, até mesmo em tempestades de neve. Mas parece que são desatentos quando o asfalto está seco, que foi a situação das quatro ocorrências.

A primeira batida causou apenas um arranhão na pintura do parachoque traseiro. A segunda não mudou muita coisa no que já estava arranhado. A terceira foi em um estacionamento e não vimos. Ela causou um vinco na porta e nenhum desses casos foi suficiente para merecer manutenção.

Mas essa última vez foi mais forte. O cara desatento bateu com força suficiente para estragar a parte de plástico do parachoque traseiro do nosso carro e acabar a frente do carro dele, que não andava mais. Esse é o principal motivo de termos comprado um carro grande, um SUV: a segurança. Não só a segurança passiva da maior resistência a impactos com seis air bags, mas também a ativa para andar na neve com melhor tração, controle e frenagem. Fazia pouco tempo que tinhamos comprado e eu adoro carros, mas aprendi a ter desapego com meu pai. Enquanto eu dirigia, bateram em um carro dele que eu gostava muito. Quando meu pai me viu irritado com o cara que bateu e triste com o estrago, ele disse: ninguém se machucou e isso é o que importa. O carro é lata que se conserta na oficina e depois de algum tempo acabamos trocando por outro de qualquer forma.

Mas então, o que fazer? Não sabia ao certo como proceder mas disse para a Mônica ligar para a seguradora que eles a orientariam. Perguntam inicialmente se alguém se machucou. Se sim, tem que acionar a polícia. Caso contrário, basta pegar certos dados do condutor. O Desjardins dá um formulário com duas partes para ficar dentro do carro para essas ocasiões. Uma parte está parcialmente preenchida com nossas informações para passarmos para a outra pessoa envolvida no acidente. A outra parte é para ser preenchida com as informações requeridas dessa pessoa.

O motorista do outro carro foi super educado e humildemente assumiu logo a culpa, pedindo desculpas pelo susto e transtorno. Mesmo não sendo obrigatório, ele acionou a polícia que fez um relatório e passou o número desse para ambas as partes. E foi só isso! Quando liguei para a Mônica para dizer que o prestativíssimo amigo Tiago estava vindo para irmos ao encontro dela, já não estava nem mais lá no local do acidente.

Em casa, conforme a orientação da seguradora, ligamos para fazer o acionamento e dar mais detalhes. Foi basicamente relatar o que aconteceu e repassar os dados do outro condutor. Feito isso, a atendente explicou como seria o processo e já deu a indicação de uma oficina que fica perto de casa.

Fui à oficina em um sábado para tirarem as fotos e para fazerem um orçamento para ser avaliado pela seguradora. Apesar de ter danificado exclusivamente a parte plástica do parachoque que nem é pintado, custou a bagatela de 1800$. Ouch! Na sexta-feira, me ligaram da oficina dizendo que tinha sido aprovado e que poderia deixar o carro. Deixei-o na segunda-feira e me emprestaram um Toyota Yaris com câmbio automático e retrovisores, travas e vidros elétricos. É a seguradora que paga o uso desse carro, mas eu tive que devolvê-lo com o tanque cheio. Na quarta-feira o carro já estava pronto, novinho de novo e sem nenhuma marca de acidente.

A seguradora disse que caso eu quisesse consertar o carro antes de eles receberem o relatório da polícia, que levou duas semanas, eu teria que pagar a franquia à oficina e ser ressarcido caso realmente não fosse nossa culpa. Não me cobraram, mas também não foi nossa culpa mesmo. Por isso, não ficamos com nada no nosso histórico, que causaria uma alta no custo dos próximos seguros. O interessante é que a culpa não é contabilizada como sim ou não, mas como um percentual. Suponho que existam situações onde cada parte fica com 50% da culpa. Também imagino como seria a apuração da culpa sem o acionamento da polícia, visto que cada seguradora paga o prejuízo do seu cliente, cobram a franquia de quem tiver culpa e se resolvem entre si para ressarcir a outra. Acho que fariam um batimento dos relatos de ambas as partes para chegarem a uma conclusão.

Um colega meu disse que por causa da questão de histórico de culpa, que se não me engano é reportado a um cadastro compartilhado entre as seguradoras, em casos menores, as partes podem negociar para não acionar as seguradoras. O fato é que nem mesmo os próprios nativos sabem dizer como é que isso funciona ao certo, mas estou muito satisfeito com o atendimento e a clareza da nossa seguradora. Agora já posso é explicar para os nativos ao invés de perguntar!

De qualquer forma, melhor mesmo é prevenir e dirigir com prudência, atenção e cuidado, principalmente no inverno. E por falar em prevenção, é bom deixar o telefone da seguradora, bem como o seu número de apólice no porta-luvas do carro!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Pneus de inverno mais baratos


Conversando com meus colegas de trabalho aficcionados por carros, descobri que podemos reduzir o preço dos pneus de inverno utilizando aros menores e compensando na altura da banda do pneu. Fiz uma tabela para exemplificar. Normalmente, só baixamos um degrau no diâmetro do aro (geralmente, un pouce/one inch/uma polegada), mas esse caso do exemplo é diferente. O modelo básico do carro tem aro 17' e o de 18' é um pneu mais "esportivo", mas não muda nada estruturalmente que possa atrapalhar. Uma dessas coisas que pode impedir essa redução é o tamanho do sistema de freios, por exemplo. Daí, mesmo este carro tendo aros de 18', podemos pular para 16' porque ele poderia ter os de 17' também sem nenhuma diferença estrutural. Um detalhe importante é que se não constar no manual, acho prudente ter uma resposta oficial da concessionária confirmando que podem ser usados sem problemas. O uso não oficial pode levar a uma perda na garantia, bem como até danificar o carro.
Esses preços são do pneu Michelin Latitude X-Ice Xi2 no Canadian Tire. Usei esse pneu na comparação porque está disponível nas três medidas, mas não o recomendo. Ele parece ser muito bom para gelo, mas não para neve. E das cidades mais importantes do Canadá, Québec é uma das que tem mais neve.
Lembrando que o aro bom para inverno é aquele de aço, preto, sem calota e bem feioso. Não é legal ficar batendo aro bonito que quebra ou calota nos meio-fios escondidos debaixo da neve! No inverno, achamos algumas calotas soltas e quebradas nas ruas.
Continuo adepto à fisolofia de ter os pneus de inverno montado nos aros e trocá-los eu mesmo em casa como descrito nessa postagem. Depois de dois ou três invernos, passa a ser mais barato. Até meu vizinho de 71 anos faz isso!


Modelo Aro Pneus 1 pneu 4 pneus Economia
Luxo 18' 235/60R18 $242.50 $970.00 $0.00
Básico 17' 235/65R17 $212.50 $850.00 $120.00
Reduzido 16' 235/70R16 $185.50 $742.00 $228.00

sábado, 20 de agosto de 2011

Película solar


Como vocês já sabem, muitos produtos aqui são mais baratos que no Brasil, mas geralmente os serviços são mais caros. Às vezes, muito mais baratos os produtos e muito mais caros os serviços. É aquela história: todo mundo quer ir para o céu, mas ninguém quer morrer. Todo mundo quer ganhar bem mas não quer pagar o salário dos outros.

Não preciso dizer que aqui também tem sol e ele também maltrata. Entrar em um carro que ficou horas debaixo do sol é cruel. Tem muitos carros aqui que têm película solar, ao menos no verão. Acho que passado o verão, os donos tiram para aproveitar melhor o calor do sol quando está frio, além de voltar a ter uma boa visibilidade. Vou validar ou não a minha teoria até o inverno.

Como a fisolofia do faça você mesmo é muito forte por essas banda, também por causa dos serviços caros, acho que a turma instala as películas solares eles mesmos. Com a tecnologia de hoje, acho que não precisa ser um expert para colocar sem bolhas. Tomara que eu esteja certo!

No Canadian Tire (o que não tem lá?), encontrei essas pellicules ou films solaires/películas ou filmes solares entre 16 e 20$. Me pareceu barato demais até ler a parte que diz que cobre um vidro traseiro ou dois laterais. Mesmo assim, só não comprei e instalei eu mesmo porque o verão já está indo embora, mas toda vez que entro no carro forno, fico pensando na decisão. Mais no próximo verão eu vou experimentar e dou mais dicas. Lembrando que nosso carrinho não tem condicionador de ar. Afinal, para que? O Canadá fica quase no Pólo Norte!

terça-feira, 17 de maio de 2011

Padrão de vida versus qualidade de vida


Li essa postagem de um blog e achei muito importante deixá-la registrada aqui. Trata-se da distinção entre padrão de vida e qualidade de vida. É difícil mostrar para quem só conhece a realidade brasileira que são dois conceitos distintos. Pior ainda é querer convencer alguém de que pode ser um excelente negócio abrir mão do padrão de vida que tínhamos no Brasil para ter a qualidade de vida daqui, principalmente quando se valoriza muito o status social.

Digo uma coisa que pode ser chocante para alguns: não troco a nossa vida daqui morando em um apartamento da década de 60, com apenas um carro que foi o mais barato que existia, indo trabalhar de bicicleta ou ônibus e fazendo todas as tarefas de casa sozinhos pela vida de empresário que morava em apartamento novo e pomposo em bairro nobre de Fortaleza, com dois carros e empregada. Não me arrependo nem um minuto dessa troca! E digo mais! Poderíamos ter dois carros que são considerados de luxo no Brasil, pois aqui eles custam entre metade e um terço dos carros brasileiros e a gasolina pura daqui custa muito menos. Mas vou continuar indo ao trabalho de ônibus por opção, aproveitando também que ninguém aqui me julga por isso e sim pelo que sou! Aproveito para ler e se quiser, tenho o direito de ouvir música e até de usar o laptop dentro do ônibus sem riscos como os outros fazem.

Minha postura agora é de que para achar melhor o Canadá que o Brasil, tem que ter sintonia com a cultura e estilo de vida daqui. Senão, o Brasil vai ser realmente a melhor opção, principalmente para quem visa o padrão de vida. Mas se quiser ter qualidade de vida sem se importar com o padrão de vida, o lugar é aqui mesmo!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ladrão canadense versus ladrão brasileiro



Ladrão canadense?!?!?! Ué! Eu pensei que não existisse isso aí! Claro que existe! Gente é gente no mundo todo, com suas qualidades e defeitos. O que muda é a proporção e...bem, vocês vão ver outra diferença.
Ladrão canadense: A Lara deixou a porta de trás do carro destravada. O nosso carrinho não tem travas elétricas, logo, às vezes acontece de alguém esquecer e nem sempre eu confiro. Um belo dia, a Mônica encontrou o porta-luvas aberto e seu conteúdo revirado no banco. Ela pensou que tivesse sido eu e nem comentou. Mas na verdade, foi um voleur/ladrão que, percebendo que a porta estava destravada, foi pegar o GPS no porta luvas. Isso acontece muito aqui no Canadá. Só que o suporte que ele viu preso no parabrisa era do nosso GPS, mas este é na verdade meu celular que, obviamente, não fica no carro.
Frustrado por não ter encontrado um GPS, ele furtou o que tinha de mais caro para levar: Um cartão de proximidade que abre a cancela do estacionamento. Wwwoooowwww!!!! Estou falido!! O coitado é tão ingênuo que nem vai poder usar o cartão em canto nenhum! O concièrge/responsável pelo condomínio cancelou o cartão e disse que nem em outros sistemas o cartão vai funcionar porque estes trabalham com uma faixa de numeração definida. Teria o som do carro para levar, mas ele fica embutido no painel e não deve ser fácil de ser reusado pois acredito que só encaixe em outro Kia Rio.
Lucro do ladrão: 0$. Prejuízo nosso: 25$ do cartão. Pra falar a verdade, achei caro porque o da escola nos custa somente 10$. Vale ressaltar que isso é apenas um depósito de garantia. Quando devolvermos o cartão, o condomínio e a escola nos devolve o dinheiro.
Ladrão brasileiro: Ligaram para o antigo trabalho da Mônica no Brasil para confirmar o uso indevido do nosso cartão de crédito brasileiro. Fazemos raramente compras de até 50$, em dólares canadenses, somente na amazon.ca ou no skype.com. Na Amazon, nem mesmo preciso fornecer os dados do cartão. Basta eu selecioná-lo. Derrepente, apareceram 3 pagamentos de contas brasileiras nos valores de R$1.600,00; R$1.300,00  e R$1.700,00 no mesmo dia. Bom, é fácil perceber que foi uma fraude, mas isso nos rendeu horas de ligação para o banco, cartas escritas à mão, várias tentativas sem sucesso de transmiti-las via fax, emails para lá e para cá, etc. Finalmente, os débitos do cartão foram cancelados, mas este também. A conta corrente ficou bloqueada. Blá, blá, blá outra vez e desbloqueamos a conta, mas somente para consultas. O novo cartão e a nova senha vão ser enviados para o endereço do nosso ex-apartamento no Brasil, que felizmente agora é do meu irmão. Enquanto isso, nada de conta corrente nem de cartão de crédito brasileiros.
Lucro do ladrão: R$4.600,00. Prejuízo nosso: Teoricamente nenhum, mas na realidade, o banco tem uma conta para bancar (banco para bancar foi sem querer) essas fraudes e somos nós clientes que pagamos esse custo que não é baixo, já que esses problemas são bem mais frequentes que imaginamos.
A diferença não fica somente na quantidade de ladrões por mil habitantes dos dois países, que deve ser bem grande. O ladrão canadense típico é o descuidista, amador, que faz somente furto e que tem medo de ser pego. Assaltos até que existem, mas são bem mais raros e mais nas grandes metrópoles. Vemos muitas mansões de meio a um milhão de dólares com uma ou até duas garagens repletas de bugingangas e dois carrões do lado de fora, praticamente na rua mesmo. Vale lembrar que aqui as casas e condomínios não têm muros, são totalmente abertos. Podemos até cortar caminho indo por dentro dos quarteirões, já que muitas vezes nem existem delimitações dos terrenos. São raros os casos de uma cerquinha baixa de madeira que serve para evitar que as crianças saiam.
O "bom" ladrão brasileiro é malandro, astucioso, profissinal, ousado, não tem medo, nada a perder e às  vezes sabe que se for preso vai ser solto. Eu já ouvi um gritar do meio da rua: -Pode chamar a polícia! Não adianta nada. No outro dia eu vou estar aqui outra vez e te pego! Já fui preso outras vezes.
No Brasil, entre tentativas bem e mal sucedidas, já fui assaltado (não estou falando de furtos) 5 vezes, inclusive com pedaços de pau, facas e um revólver apontado para meu rosto. Nesta última vez do revólver, já estava tão acostumado que acalmei o assaltante e negociei com ele para ficar com a carteira e os documentos.
Continuo prostituído da vida com a chatice que o ladrão brasileiro causou, principalmente porque nem estamos mais no Brasil. Mas prefiro os ladrões de galinha canadenses!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Piquenique na tempestade de neve




Quando eu só conhecia areia e sol, eu tinha medo do inverno canadense. Um amigo meu que na época morava em New Jersey tentava me convencer que o inverno não era bicho de catorze chifres (sete cabeças). Quando eu comentei sobre o caos que estava na Inglaterra por causa de neve, ele me disse que é porque lá neva pouco e eles não têm estrutura para isso, ao contrário do Canadá. A frase dele era mais ou menos assim: Quando cai uma nevezinha na Europa, é o fim do mundo. No Canadá, se cai uma tempestade de neve o canadense vai fazer piquenique no parque. C'est sûr et certain/é seguro e certo que se trata de um exagero, mas nem tanto.
A Lara tinha um aniversário para ir. A casa da amiga dela fica fora da cidade, bem longe. Olhei pela janela e vi que São Pedro estava dormindo e o Windows do computador dele que controla o clima estava travado, mostrando aquela telinha azul linda que todo mundo adora. Vamos lá? Ninguém disse que não, então vamos!
Mas que cearenses atrevidos, viu? Caia uma baita tempestade de neve, ou como dizem os québécois, tempaaaeeeiiite de naaaeeeiiige. A neve era fina mas caia como que jogada de balde. O vento estava bem forte, o que causava um poeiral de neve ou, como se diz em francês mas somente no Québec, poudrerie. O vento jogava a neve gelada no rosto, mas rapidinho chegamos no carro. O carro está um chiqueiro! Não é só de neve. Tem lama da areia que jogam para dar mais aderência à pista. Com o vento então, os bancos ficaram cheios de neve. Acrescente mais 10 minutos de raspagem mínima do gelo grudado nos vidros (curtindo a "brisa") para poder digirir, mesmo assim vendo tudo borrado.
Para sair então, estanquei de cara. a neve acumulada segura o carro. Também se acelerar mais que o necessário, o pneu patina e o carro não sai. Para sair do estacionamento que fica no andar superior, tem uma curva em descida. Se não tiver cuidado, o carro deslisa e bate na quina do prédio.
As ruas principais estavam com menos neve por causa do eficiente serviço de déneigement/remoção de neve de Québec, mas as outras estavam com neve raspando embaixo do carro. Algumas transversais ficam com uma parede de neve na curva por causa da neve raspada pelos caminhões do déneigement. Nas saídas, dá para passar de primeira a quinta com o carro quase parado. Inclusive, quanto mais aceleramos, menos o carro anda. Nas curvas, além de não vermos por causa da falta de limpeza do vidro lateral, se não tivermos cuidado o carro derrapa e sai da pista ou bate no carro ao lado. O bizu é baixar e subir os vidros laterais para limpá-lo. Quanto a derrapagem, só praticando mesmo. E onde é que está a pista mesmo, hein? Será que eu estou na contra mão? Para completar, gruda gelo nos limpadores de parabrisa. Para evitar, o bizu é colocar ar quente na saída de ar perto do parabrisa (desembaçador). O vidro quente derrete o gelo dos limpadores e este volta a limpar mais que sujar.
Na ida, a visibilidade estava bem ruim e pegamos uma estrada. Depois fomos levar o Davi para brincar no shopping. Quando saímos de lá para pegar a Lara, aí é que estava pior mesmo porque já estava de noite...quero dizer, de dia mas estava fazendo preto, não, não! Isso é como se diz em francês (il fait noir). Estava escuro, mas de dia em plenas 16h30 da tarde. Bom, agora acho que dá para entender.
A ruazinha da casa da amiga da Lara parece que nunca viu uma pá na vida. A neve estava mais alta que a parte de baixo do carro. O desmiolado aqui, ao invés de parar na esquina e ir a pé já que era bem perto, resolveu ir de carro e ainda fazer a manobra para retornar no meio da rua. Resultado? O carro atolou, claro! Depois de uns bons vai-e-vens (será que é assim o plural dessa palavra composta?), consegui tirar o carro. Existem uns kits para desatolar carros. É tipo uma esteira para colocarmos debaixo dos pneus. Custa 20$ e acho que vale a pena, mas perde a graça! Claro que temos que andar com uma pá no porta malas. Ao menos isso eu comprei.
O começo da nossa rua é uma ladeira da cidade baixa para a cidade alta. O carro quase que não subia. A chegada em casa é que foi ainda mais legal. Abri a cancela e quem disse que o carro ia para frente? Voltei um pouco e aí, se arrastando como uma tartaruga ele foi. Só que o nosso estacionamento fica no andar de cima, com uma rampa inclinada e em curva. Quanta engenharia para o inverno! Ao menos o carro do canto depois da curva não estava lá porque ou o carro sobe mas deslisa de lado e passa por essa vaga, ou nem sobe! E foi o caso. Eu tive que tentar e voltar umas 6 vezes para cavar o caminho para que o carro pudesse subir. Tinha mais que um palmo de neve fofa acumulada. Fofa no sentido próprio! Nessa hora eu não estava muito carinhoso com ela. Vejam na foto o rastro que o carro cavou que é fundo mesmo sem ter chegado no chão.

Hoje eu aprendi algumas lições sobre carros para o clima daqui. Freios ABS são muito importantes e meu carro é um dos raros que não os tem. Tração nas quatro rodas não é luxo e nem só para quem faz off road; Carros grandes também não. Eles são mais pesados e afundam mais na neve fazendo contato com o asfalto, mesmo tendo pneus mais largos e que melhoram a aderencia; Carros sedan têm a desvantagem de não poderem ter o limpador do vidro traseiro, que é bem recomendável para essas situações. Vidros elétricos facilitam a limpeza dos vidros laterais e comemos menos neve nessa manobra. O meu também não os tem! A trava mecânica das portas congela e não abre enquanto que a elétrica não tem esse problema. Para isso, compramos um degelante no Canadian Tire. Já está no nosso planejamento trocá-lo por um SUV (sport utility vehicle)/VUS (véhicule utilitaire sport)/VUS (pau pra toda obra) no próximo ano.
Vocês são uns loucos! Sim, somos! Mas a rua estava cheia de outros loucos. O estacionamento do shopping estava cheio (confiram no vídeo). Os pilotos canadenses voam com nevasca. Enfim: todo mundo aqui é louco. Como digo sempre, não tem clima que impeça o québécois de sair de casa e ter sua vida normal, faça chuva congelante, faça sol de onda de calor. Ficar trancado em casa o inverno todo também deixa qualquer um louco. E sabe de uma coisa? Adoro fazer rally na neve. Acho que depois dessa eu tirei a minha carteira de inverno. E de quebra, ainda fico com mais uma história para contar para vocês!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A volta da Branca de Neve




Calma lá! Esse do vídeo sou eu! A Branca de Neve... bem, deixe-me explicar.
Recapitulando, em janeiro quando cheguei em Toronto para fazer o landing, eu vi uma cidade sem neve em pleno inverno. Fiquei meio encucado, mas tudo bem. Mas quando o avião sobrevoou Québec, fiquei surpreso e encantado! A cidade estava toda... Branca de Neve! (Detalhes nessa postagem).
Pois bem, passados 10 meses desde a minha chegada aqui, eis que ontem começou a nevar novamente em Québec, deixando a nossa cidade ainda mais charmosa! Tem quem simplesmente tolere, tem quem não goste, tem quem deteste, mas eu e as crianças continuamos adorando o inverno!
Por falar nisso, ainda falta cerca de um mês para o inverno de calendário, mas já estão todos considerando que é inverno. É similar a quando dão boa noite às 03h30 da tarde ou bom dia às 20h00. A natureza varia tanto que as pessoas deixam de ser rigorosas quanto à cronologia oficial.
Interessante é que toda vez que olho pela janela para fora, levo um susto! Uau! Como a paisagem mudou da noite para o dia! A impressão que dá é que eu cheguei em uma cidade no inverno, depois fui para outra e agora estou de volta à primeira. A mudança visual é radical.
Muitos aspectos da nossa vida são cíclicos, mas não se passam da mesma forma. Não são círculos, mas espirais. Nesse inverno estamos de carro, o que é bom e é ruim. É bom porque temos mais liberdade de destino e de horário. Também, apesar do meu masoquismo, devo reconhecer que é bem mais confortável andar de carro com aquecedor que a pé a -20°C. Mas ainda estamos no patamar de -8°C por enquanto. O lado ruim é que dirigir na neve e no gelo é mais arriscado. Eu não vou mentir: sempre gostei de off-road e rally, só que nunca tive a oportunidade de experimentar. Pois bem! Ei-la! Um off-road on-road! Um rally de casa até o supermercado! A Mônica é que não está gostando nada dessa estória. Ela é quem usa o carro durante a semana. A bicicleta foi hibernar (claro!) e agora vou voltar a ter tempo para ler meus livros nos ônibus.
Seção de avisos! Inverno também é uma temporada de chutes, digo chutes/quedas! A neve escorrega um pouco. A neve amassada escorrega mais. Quando a temperatura fica positiva, a neve derrete e fica tudo cheio de água. Depois, fica negativo e a água congela. Aí esse gelo escorrega ainda mais! E estou falando daquele gelo brilhante como cubo de colocar em bebidas. Aí depois neva por cima e o gelo escondido vira uma armadilha. Levei um baita escorregão nessa daí, depois cavei para mostrar na foto. Ela fica exatamente atrás do nosso carro. Só agora sei porque deixaram para ocupar essa vaga por último! Se aproveitaram do matuto do cearense!


Achas que é o pior que pode acontecer? Amanhã vai ter outra vez a maior molecagem que São Pedro conseguiu inventar: A pluie verglaçante/chuva congelante. É um fenômeno raro quando a água cai líquida e congela ao entrar em contato com  as superfícies. Talvez seja mais seguro sair de casa logo de patins de gelo. Taí! Boa ideia! Foi a única vez que não adiantou meus anos de experiência com patins, skate e artes marciais. Os meus dois pés foram para o alto e aterrisei de ombro (detalhes nessa postagem). Dica valiosa que muitos me deram no inverno passado: não andem com as mãos nos bolsos. Em uma queda, pode ser que fiquem presas e caiam de cotovelo. Ouch/ai!
Mas não tem nada como voltar a ser criança e brincar com a Lara e o Davi de guerra de bolas de neve, fazer um bonhomme de neige/boneco de neve e a nossa patinação em família de todos os finais de semana. Afinal, como diz a música, "C'est l'hiver, c'est l'hiver, c'est l'hiver..." (É o inverno).



quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Carros bem calçados para o inverno


A neve já está chegando! E vem mais cedo esse ano. No inverno passado, estávamos sem carro ainda e nem precisamos nos preocupar. Compramos o carro com algum risco de outra neve na primavera, mas não aconteceu.
Agora, temos que usar os pneus de inverno. Tanto porque a partir do dia 5 de dezembro o seu uso é obrigatório aqui no Québec, quanto porque aqui em Québec, sem eles fica emocionante demais para dirigir! Pense só a quantidade de neve que cai aqui, mais que noutras cidades canadenses, e nas várias ladeiras bem inclinadas que ligam a cidade alta à cidade baixa! Uou!!
Os pneus de inverno são mais biscoitudos, com sulcos mais largos, desenho apropriado e a borracha é tão mole que conseguimos deformar os biscoitos com a mão. Assim eles deformam e tiram a neve dos sulcos, enquando que os outros ficam lisos como pneus carecas. Também a temperatura muito baixa requer uma boracha adequada.
Conselho do amigo Idevan: Compre-os logo porque depois da primeira neve, as lojas ficam lotadas! Fiz minha pesquisa e já resolvi o problema. Porém, não sem antes consultar a comunidade sobre duas possibilidades: Pagar para trocarem os pneus ou comprar com aros e trocar em casa.
A primeira possibilidade é a que aparece logo, e é mais cômoda. O sujeito vai à loja, compra os pneus e paga o serviço de desmontagem dos pneus toutes saisons/all seasons/para todas as estações, montagem dos pneus de inverno e equilibrage/balanceamento. Pelo que me disseram, esse serviço custa ao menos 65$. Só que, passado o inverno, tem que pagar novamente para recolocar os pneus originais e balancear novamente. A parte ruim é que tem que agendar horário, que dependendo da época, pode ser bem difícil ou em horários chatos.
A segunda possibilidade é comprar os pneus, com mais quatro aros e pagar o serviço de montagem e balanceamento, que é mais barato. O dos meus saiu por 32$ (na Canadian Tire). Cada aro custa 50$ (aro 14, de aço). Nesse caso, o lado ruim seria trocar os pneus em casa, mas em compensação, não precisaria pagar nem marcar horário. O serviço de montagem dos pneus inclui a troca deles, mas é só na primeira vez.
Depois de dois invernos, a primeira opção custaria 4 x 65$ = 260$. A segunda já sai mais barato, por 200$ + 32$ = 232$. A partir daí a primeira opção fica 130$ mais cara a cada ano, enquanto que a segunda se mantém no mesmo valor. Foi a que eu optei! Até por ser adepto da filosofia do faça você mesmo.
Para finalizar, mais uma gafe de matuto que acha que neve é igual a areia. O meu diálogo com o vendedor:
-Qual é o carro?
-Kia Rio 2010.
-Aro 14, né?
-Sim. Eu vou querer o 185.
-185?
-Sim.
-A velocidade?
-Não!
-O preço?
-Não! A...como se diz? É larjura? (fazendo a mímica que não dá para fazer por telefone)
-Largura?
-Isso!
-Mas o pneu original do seu carro é 175! Para que você quer um mais largo?
-Para andar melhor na neve! (claro, bicho brabo!)
-Mas é justamente o contrário! É pior!
-Hein?!?!?!
-O pneu mais largo afunda menos e não encosta no asfalto. Fica deslisando na neve. Também nas curvas ele cava menos na neve e derrapa mais lateralmente.
-Ai é?!?! (então o bicho brabo sou eu! Inclusive porque o 185 é mais caro!) Obrigado pela informação! Vou querer 175 mesmo!
Confirmei a teoria do vendedor com outras pessoas. Fica aí a dica para não quere usar pneus de bugre na neve!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ali babão e as 40 Ferraris




Agente vê cada coisa por aqui que nem acredita. Eu sempre vejo muitos carrões, mas o gosto norte-americano para carros e motos é mais saudozista que modernista. Existem motos japonesas tipo as de corrida, mas a grande maioria são daquelas dos motoqueiros vestidos de couro preto, de barbona, como no filme Easy Rider. Não assistiu esse filme? Não tem problema! Eu também não assisti! Bom, estou falando de motos tipo as Harley Davidson.
Mas voltando aos carros, aqui os ícones esportivos norte-americanos são reedições dos velhos clássicos muscle cars/carros "musculosos": Mustang, Dodge Charger, Chevrolet Camaro e Corvette. Esses são muito comuns aqui e alguns têm o preço até acessível. É curioso que ao mesmo tempo que se vê nas ruas daqui todas as importantes marcas alemães como Mercedes, Audi, BMW, Porsche e Volkswagen, não se vê nenhum carro francês ou italiano.
Opa! Italiano? E as Ferraris? São poucas porque são caras e importadas, mas já registrei em uma mesma foto três delas estacionadas juntas na avenida da badalação (Grande Allée). Também já topei com uma Lamborghini. Sim, são poucas, mas juntando a galera daqui com a de Montréal, dá para fazer um desfile surreal: 40 Ferraris e 4 Lamborghinis! O matuto aqui que fica babando quando vê uma, ficaria ainda mais babão vendo-as passar aqui na esquina de casa.
Digo ficaria porque infelizmente, por coincidência, elas passaram justamente na hora da seção de perguntas do encontro de futuros imigrantes de Fortaleza. Eu não poderia faltar com a palavra e desrespeitar os 45 participantes. Mas me doeu não escutar pessoalmente o ronco dos rubros bólidos da scuderia italiana. A equipe reserva de correspondentes do jornal do imigrante foi lá conferir o evento inesperado: A camera-woman Mônica, a reporter Lara e o especialista em automóveis esportivos Davi. Confiram neste vídeo do começo da postagem.
Para quem não tem lá suas centenas de milhares de dólares, por apenas 30$ eu e o Davi nos contentamos com a nossa Ferrarizinha com controle remoto progressivo, que acende e apaga os faróis pelo controle remoto e tem potência para derrapar no piso de madeira do nosso apartamento se acelerarmos muito.
Quem não tem cão, casa com gata!


quinta-feira, 22 de julho de 2010

Agora eu posso ser pobre!


No Brasil, o perfil de classes sociais que usam os meios de transporte é bem mais definido. Pessoas das classes mais baixas não podem comprar um carro e uma parte deles anda a pé ou de bicicleta por não ter como pagar mesmo o custo do ônibus. Por outro lado, quem pertence às classes mais altas não pode usar a bicicleta como meio de transporte do dia a dia por causa dos assaltos. E ao menos em Fortaleza, tem mais dois ingredientes: Trânsito caótico com motoristas mal educados e arrogantes e o calor infernal.
Aqui o uso dos meios de transporte é bem mais difuso (ah como eu queria ter esse vocabulário rico em francês!). Com um salário mínimo de 1600$/mês, carros usados a partir de uns 4000$ e o inverno rigoroso, os carros são mais universais. Mas também, anteontem mesmo eu vim para casa ao lado de um cara com roupas sociais que trabalhava usando o notebook em pleno ônibus. Isso não é raro. Aqui, ônibus não é veículo somente de pobre. Existe inclusive promoções para quem paga estacionamento no trabalho que pode experimentar ir de ônibus de graça por uma semana. Essa é a concorrência deles.
Também se vê muito as pessoas usando não só como diversão, mas como meio de transporte rotineiro bicicleta e mesmo patins.
Feita essa introdução para tentar fazer uma troca de contexto, agora vamos à boa notícia: A Mônica tirou a carteria de motorista daqui. Aêêêê!!! Fiquei muito orgulhoso porque muita gente reprova e ela teve a maior pontuação que eu já tive notícia até hoje. E agora, o carro é dela porque as suas aulas terminam no meio da tarde e fica mais cômodo para pegar as crianças nos dois sentidos, do horário e agora indo de carro.
Agora vamos ao choque cultural. Eu devia estar triste, não? Voltar a andar de ônibus? Eca! Coisa de pobre!! Eu passei um tempo deixando o carro na garagem e indo de ônibus por opção, já que este passa a cada, no máximo 10 minutos, vai de porta a porta e muitas vezes eu ia sentado e lendo. O carro é um treco esquisito. Gastamos energia (embora a gasolina aqui custe somente cerca de 1$ por litro) para fazer com que uma massa de em torno de uma tonelada se mova para transportar apenas algumas dezenas de quilos de carga útil e ainda poluindo. Sem contar com o sedentarismo que ele traz.
Mas eis que surge a possibilidade de eu fazer o que eu queria no Brasil e não podia. Ser chique como os cidadãos de países desenvolvidos e poder ir para o trabalho de... bicicleta! Isso! É saudável, divertido, econômico, ecológico e até seguro! É um meio de transporte inteligente. Com apenas 140$ comprei uma bicicleta com quadro de alumínio, bem leve, com suspensão dianteira e traseira. Muito barato! Moro a apenas 3Km do trabalho, vantagem das cidades menores, tem vias cicláveis, ruas que quase não têm movimento e motoristas que respeitam. O único problema, que vai se resolver com o tempo, é que moramos na cidade alta e trabalho na cidade baixa. O desnível é grande. Para ir é uma maravilha! Metade do caminho é descida e chego nos mesmos 15 minutos de quando ia de carro. O problema é a volta! Haja fôlego! Mas a ideia é essa mesma! Exercício é saúde!
Escolhi esse tema como forma de ilustrar que os contextos dos dois países são muito diferentes e quem vem para cá tem que estar de cabeça e espírito abertos para se adaptar melhor. Vai ter gente que vai entender que para mim foi uma mudança que eu queria desde o começo, outras vão torcer o nariz e outras vão me chamar de mentiroso porque simplesmente não bate com o paradigma brasileiro. C'est la vie!/É a vida!

sábado, 10 de abril de 2010

Passiá carrão pata papai?


É assim que o Davi pergunta se vamos passear no nosso novo carrão prata. Ele também chama de vuatú ajã (voiture argent/carro prateado) e mesmo que ainda não seja compreensível para um francófono, ao menos mostra que ele está aprendendo.
Para os padrões daqui, o carrão (Kia Rio) na verdade é peba/de baixa qualidade (nota do tradutor: peba é um termo do dialeto cearense). Porém, nos sentimos como se fosse o Corsa que tinhamos porque é parecido até esteticamente, também é sedan e tem a mesma cor. Não tem trava e vidros elétricos como o Corsa tinha, mas tem air bag, som com USB, viva voz bluetooth, motor 1.6 16 válvulas e tem ABS. O air bag e ABS são itens de luxo no Brasil e aqui, ao menos o ABS, é padrão há décadas e ninguém nem fala mais. Também! Vai frear na neve! Com frete, preparação, impostos e tudo mais, paguei 3.000$ e financiei 11.000$ em dois anos com juros de 0% por um  o carro 0Km. Pelo poder de compra daqui, é como se ele custasse R$14.000,00 no Brasil. Outro fato que o faz ser um dos mais baratos carros novos daqui é que ele é da Manuelle. Isso foi uma confusão que fiz porque tem nome de gente. Na verdade é que tem cambio manual e a grande maioria tem cambio automático. Não me importo. Sempre dirigi carros da Manuelle no Brasil. Ahh!!! Tem garantia de 5 anos em tudo, exceto pedais, limpadores de parabrisa e pneus. E temos direito a um mecânico para nos salvar caso tranque com a chave dentro ou falte gasolina, sem pagar extra.
O fato é que estou muito contente por ter conseguido mais essa vitória na nossa caminhada aqui. Usei a palavra caminhada porque todos nós andamos pra caramba! Eu ando no mínimo um quilômetro e meio todo dia, e chego a andar quatro quilômetros, sendo um de subida de ladeira como se fosse subida de serra. Mesmo com o carro, continuamos andando porque é saudável e já estamos habituados.
O primeiro contentamento vem do fato de que a Mônica e as crianças não vão mais ter que andar no frio de -20 graus, rajadas de 60Km/h e chuva para pegar a Lara na escola. Nesses dias, o carro não vai ficar de enfeite na garagem, já que continuo indo para o trabalho de metrobus por opção. Tenho direito a uma vaga no estacionamento da empresa, mas não espero nem 5 minutos pelo ônibus, normalmente vou sentado, lendo e a empresa paga a carga do cartão de passe.
O segundo contentamento é pelo fato de ter vencido uma batalha dura. A primeira concessionária da Kia disse que pela falta de histórico de crédito, nenhuma concessionária iria financiar um carro para mim. Fui na segunda também da Kia. Lá, sabendo de toda a minha situação de imigrante recém-chegado, começamos o processo. Suspense no aguardo da resposta da financeira e trim, trim, toca o celular. Era o gerente comercial:
Seu financiamento foi aprovado. Só falta você nos enviar um fax com a carteira de motorista do Québec. Câlice de tabernake! (vocês já sabem, né? Palavrão québécois) O cara sabe que eu não tenho! Vai ver isso é bem uma maneira polida de dizer não. Liguei para o vendedor que me deu uma notícia boa demais para ser verdade: Basta você ir na SAAQ aqui do lado e pegar uma carteira de aprendiz! Vá lá que você resolve hoje mesmo. Liguei para a SAAQ e confirmei minha suspeita: Só poderia fazer isso se eu tivesse feito os 5 módulos do curso obrigatório. Era dia 31 de março e o meu exame teórico estava marcado para o dia 15 de abril, que foi a data mais próxima que me deram. Quem não arrisca, não é petista, já diz o ditado (mudei um pouco para ficar mais divertido). Liguei e consegui transferir para o dia seguinte, que era primeiro de abril. Putz! No dia da mentira! Lai vai eu fazer o exame e graças a Deus, passei, mas sai só com um papelzinho de uma carteira de aprendiz e ainda provisória. Mandei para o fax do gerente comercial e quando liguei para confirmar, ele já tinha mandado para a financeira.
-E aí? É suficiente?
-Não sei, mas quando derem resposta, eu te ligo.
Passamos os quatro dias de feriado de páscoa no suspense e na terça-feira ele me liga.
-Beleza! Foi aprovado! Ligue para o vendedor para vir buscar o carro.
-Pode ser hoje? O carro vai estar pronto?
-Sim.
-Emplacado e licenciado?
-Sim.
E assim fiquei eu, sorridente cantando vitória, quando ele me liga:
-Tem mais um detalhe.
-Qual?
-O carro só pode sair da concessionária com a certidão de seguro. Você já fez o seguro dele?
-Não! Não tenho o número do chassis! Mande-mo (eita! É mande + me + o. Detonei agora!) via email que eu vou ver o que eu consigo fazer.
-Sim.
Por sorte, contratar um seguro aqui é mais fácil que descascar banana (a banana daqui é colombiana e muitas vezes só conseguimos começar a descascá-la usando uma faca. Estou falando sério!). Liguei para o Desjardins e, a partir do número do chassis, a mulher já tinha todos os dados do carro. Caramba! Ela me pediu o nome da concessionária, o nome do vendedor e me pediu para aguardar um pouco. Quando voltou, ela me disse que já estava tudo resolvido. Quando perguntei se ela poderia me dar algo via fax para mandar para eles, ela disse que já tinha mandado, que o carro já estava assegurado e que não precisava fazer mais nada. Isso em apenas uns 15 minutos de ligação! Vai para o Guiness book (o livro dos recordes).
Depois do trabalho, passei lá, assinei uma pancada de papéis e já pude me vingar da ladeira da ave. St-Sacrement. É que das outras duas vezes que fui à concessionária, sai de lá a pé e tive que subir um quilômetro de ladeira muito íngreme como havia falado antes. Dessa vez, subi dirigindo e cheguei em casa bem menos cansado e muito satisfeito por ter dado certo.
Essa confusão toda aconteceu no primeiro de abril, mas juro que é verdade!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Turn right followed by keep on left



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Nas placas dos carros do Québec, tem uma inscrição que diz "Je me souviens" (eu me lembro). Quem quiser saber um pouco da história que essa frase, tem este ponto de partida. No meu caso, a frase teve o significado de "eu ainda me lembro de como se dirige um carro!". Poxa! Desde que vendi meu carrinho lindo e amado, estava andando só de ônibus e a pé. Não que eu ache ruim. Pelo contrário, adoro andar. Mas também adoro dirigir.
Eu, como bom medroso (acreditem! Mesmo fazendo essa maluquice de imigração, sou muito medroso), não queria dirigir enquanto não lesse o manual de preparação para o exame de permis de conduire/carteira de motorista daqui. Ai vocês disem: Poxa! Tu é medroso mesmo! Dirigir é igual no mundo todo. Bem, aqui podemos dobrar à direita no sinal vermelho, a não ser que a placa diga que é proibido. Para complicar, na hora de dobrar, tenho que ler as instruções de dias e horários em francês! E o sinal piscando verde quer dizer que posso dobrar a esquerda sem medo, senão tenho que aguardar a vez, desde que não tenha outra placa sacana dizendo que é proibido de 07h00 a 09h00 e de 15h00 a 17h30, de lun (lundi/segunda-feira) a ven (vendredi/sexta-feira) exceto para ônibus e taxis. Isso é bom com o carro andando! Vejam um exemplo nesta foto:


From Balade de Voiture

Outra diferença. O pedestre aqui tem a preferência. Se formos pegos não dando a preferência para eles, tome multa! Quase que não conseguimos passar entre os shoppings. Sempre tem gente querendo atravessar.
Mas legal mesmo é essa confusão de viadutos do mapa do começo do post. Isso para quem nunca dirigiu aqui, nem nunca passou por ele, à noite, sem ver faixas no asfalto e com os apressados querendo passar por cima, é legal pra caramba para pegar confiança.
Mas...o dever chama. Não teria como levar tantas compras de ônibus até o novo apartamento. Basta a televisão ou o microondas para inviabilizar. Por isso, aluguei um carrão. O cara me perguntou se eu queria um Impalá ou um Corrrrolá. O Impala, que eu saiba, é uma banheirona estadunidense. Neca! Depois que escolhi o Corolla, o safado disse: Ele é melhor porque tem GPS. Depois de muita briga, eu querendo que o GPS mostrasse o mapa e o curioso querendo saber para onde eu queria ir, resolvi fazer a vontade dele.
Sai devagarinho para sentir como é dirigir com o asfalto escorregadio e a tiazinha do GPS dando as instruções em inglês. Iamos nos entendendo bem quando no labirindo que falei, ela tasca um "turn right followed by keep on left... BEEP!". Hein?!? Quando o teecko e o teacko entenderam o que ela queria dizer, já tinha dobrado no lugar errado. Fucking tabernake (interjeição obsceno-blasfêmica multi-linguística) ! Parei o carro e vi como é que voltava, porque a tiazinha, com raiva de mim, parou de me dar as direções. Quando voltei para a o caminho, ela continuou.
Depois que cheguei na loja de móveis, que era afastada e mais difícil de encontrar, mandei a tiazinha pastar porque de Sainte-Foy (onde tem a Canadian Tire e os três shoppings vizinhos) para casa eu já conhecia bem.
Outras coisas curiosas em relação a carro aqui. Não tem aquele lance de "tenho que ir porque deixei as compras no carro e a comida vai estragar". Se não me engano, a temperatura do congelador é de -18 graus. Aqui faz menos que isso! Se esquecermos uma garrafa de água dentro do carro, podemos encontrá-la congelada. Mas depois de algum tempo, o aquecedor faz até calor e tenho que deixar só ventilando. Outra coisa curiosa é que todo carro daqui já liga os farois quando damos a partida (é lei), e quase todos eles são hidramáticos (câmbio automático). No inverno, é obrigatório o uso de pneus de neve. E mesmo com ele, o ABS dá as tremidinhas no pedal do freio de vez em quando. Não tem frentista nos postos de gasolina. Vou conversar com a pompe/bomba de essence/gasolina amanhã. Também achei esquisito o portamalas não abrir. O carro é novíssimo. Simples! Estava congelado! Só um jeitinho que abre. Hoje pela manhã, os vidros estavam com desenhos de cristais de gelo, atrapalhando um pouco a visão. Dei uma raspada no canto e vi que estava bem grudado. Para isso que serve os desembaçadores. Ainda bem! O carro tem um escovão próprio para tirar neve.


From Balade de Voiture

E apesar de ser bem mais raro que no Brasil, tem artista no trânsito daqui também, mas bem menos audazes. Neste caso, era a vez dele antes da nossa.


From Balade de Voiture

Estou pesquisando para ver se encontro uma seguradora que não exija carteira de motorista canadense para poder comprar nosso carro. É chato poder dirigir (3 primeiros meses com a carteira brasileira) e poder comprar um carro, mas não poder licenciá-lo por falta do seguro. Como também deixar a vaga do estacionamento vazia. E o Celta 2005 que vamos vender vira um Civic ou Corolla do mesmo ano, igual a abóbora que vira a carroagem da Cinderela. Se pensarmos mais além, os 10.000$ na verdade têm o peso de R$10.000,00 considerando que nosso salário também é pago em dólares.
Bem, segue mais uma fotonovela.



Balade de Voiture