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terça-feira, 17 de maio de 2011

Padrão de vida versus qualidade de vida


Li essa postagem de um blog e achei muito importante deixá-la registrada aqui. Trata-se da distinção entre padrão de vida e qualidade de vida. É difícil mostrar para quem só conhece a realidade brasileira que são dois conceitos distintos. Pior ainda é querer convencer alguém de que pode ser um excelente negócio abrir mão do padrão de vida que tínhamos no Brasil para ter a qualidade de vida daqui, principalmente quando se valoriza muito o status social.

Digo uma coisa que pode ser chocante para alguns: não troco a nossa vida daqui morando em um apartamento da década de 60, com apenas um carro que foi o mais barato que existia, indo trabalhar de bicicleta ou ônibus e fazendo todas as tarefas de casa sozinhos pela vida de empresário que morava em apartamento novo e pomposo em bairro nobre de Fortaleza, com dois carros e empregada. Não me arrependo nem um minuto dessa troca! E digo mais! Poderíamos ter dois carros que são considerados de luxo no Brasil, pois aqui eles custam entre metade e um terço dos carros brasileiros e a gasolina pura daqui custa muito menos. Mas vou continuar indo ao trabalho de ônibus por opção, aproveitando também que ninguém aqui me julga por isso e sim pelo que sou! Aproveito para ler e se quiser, tenho o direito de ouvir música e até de usar o laptop dentro do ônibus sem riscos como os outros fazem.

Minha postura agora é de que para achar melhor o Canadá que o Brasil, tem que ter sintonia com a cultura e estilo de vida daqui. Senão, o Brasil vai ser realmente a melhor opção, principalmente para quem visa o padrão de vida. Mas se quiser ter qualidade de vida sem se importar com o padrão de vida, o lugar é aqui mesmo!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Colocando o pé no chão


Agradeço muito toda a energia positiva de todos vocês que torcem por nós e comemoram cada conquista como se fossem de um irmão. É algo realmente forte e emocionante. De certa forma, os imigrantes e futuros imigrantes têm esses laços fortes que nos torna irmãos mesmo. Mas...
Desculpem ser estraga prazeres. É que vejo novamente a necessidade de colocar o trem nos trilhos para voltar a ficar de bem com a minha consciência. Sinto que mais uma vez estou criando uma imagem da imigração como um mar de rosas, uma panacéia, algo que é obviamente a melhor coisa a ser feita.
Infelizmente, a nossa história de imigração é totalmente atípica e não deve ser tomada como referência. Acho que não vão mais haver processos de imigração de somente 6 meses como o nosso.  É raríssimo ver alguém ser contratado ainda no Brasil, ainda mais com um bom salário que propicia uma boa qualidade de vida. Nem todo mundo se adapta tão bem, gostando do inverno e suportando bem a saudade. Muitos não conseguem comprar um carro e poucos conseguem comprar uma casa.
Não digo que não consigam uma boa imigração e sejam felizes. Mas não criem muitas expectativas com isso porque a decepção pode ser grande. Tem gente que volta imediatamente quando se vê em uma situação completamente diferente da sonhada e tem gente que vive maus momentos aqui. Já vi separações, gente à beira da falência, gente já com cidadania canadense voltando ao Brasil por não suportar a saudade, dentre outras histórias infelizes.
Uma estória mais típica de imigração que pode servir melhor de referência e que vai ajudar a ter expectativas mais seguras é a do casal brasileiro Patrick e Valéria na série de vídeos J'adopte un pays/Adoto um pais, primeira temporada. Vejam a série nessa página, na parte de baixo onde diz "Saison 1".
Vi essa série toda ao menos três vezes e me colocava na pele do Patrick em todas as dificuldades: quando fazia entrevistas de emprego e mal conseguia falar em francês, quando teve que lavar pratos para pagar as contas, quando alugou um apartamento pequeno e velho em um bairro longe e "violento" de Montréal, quando andava muito no frio do inverno, quando falavam de saudade, etc.
Lembro de ter lido em um blog uma postagem chamada reality check/checagem de realidade. O autor dizia para avaliarmos nossa empregabilidade e outros aspectos com uma visão mais crítica, sem a superestima que naturalmente criamos. Um teste exemplo é assistir filmes em francês e/ou inglês sem legendas para avaliar o aspecto comunicação.
Dessa forma, eu vim para cá com expectativas bem baixas e preparado para o pior. A probabilidade de uma decepção e volta ao Brasil é menor assim. O medo às vezes atrapalha, mas às vezes é quem evita que soframos. Relembrem a girafa: Cabeça nas núvens mas os pés no chão!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Robôs dos Jetsons, parte III


Vou responder às peguntas da Patitando e aproveitar para repassar a opinião do ex-conterraneo KK para equilibrar a avaliação do robô tampinha descrito na parte II dessa série.

Esse robozinho é redondo, então como vocês fazem com os cantos dos cômodos?
O Roomba, que aspira tem uma escova mais saliente que diz a propaganda que escova os cantos também, mas o relato do KK faz com que isso seja irrelevante. Guentaí que conto já. Já o Scooba não tem isso e, de fato, não dá para limpar os cantos. Porém, existem dois fatores atenuantes: O primeiro é o fator probabilístico. Seja p(x) uma função de distribuição de probabilid... Epa! Acabou o mestrado! Xô!!! Bom, o que eu quero dizer é que normalmente a sujeira fica na imensa maioria da área que é o resto. Daí até juntar sujeira o suficiente nos cantos, leva um bom tempo e é mais prático depois desse tempo limpar esses cantos. Outra coisa é que eu fasto alguns móveis de forma alternada para que o Scooba limpe tudo. Uma vez ele limpa o quarto com a cama no lugar normal, outra vez eu a encosto na parede. Assim, só ficam praticamente os cantos do cômodo mesmo. E ele limpa por baixo de alguns móveis como o sofá.

Outra coisa, vocês acham que ele é eficaz também na cozinha onde pode ter mais gordura?
Apesar de usá-lo também na cozinha, eu não fiz experiência com gordura, mas ele vem com um líquido para diluir na água que faz até espuma. O problema é que ele só dura umas 10 aplicações. Alternativamente, o manual diz que podemos usar vinagre branco para complementar a limpeza e matar os germes. Não posso dizer o efeito disso porque o mestrado não foi na área de química. O que posso dizer é que os meus queridinhos filhos (oinc, oinc) todo dia deixam migalhas cair no chão e o Davi joga mais comida fora que dentro da boca. Quando voltamos para casa, o chão do cômodo do dia está limpo para andarmos descalços e para o Davi rolar no chão.
O modelo que eu tenho é o Scooba, que aspira, lava, esfrega e suga a água suja. O chão daqui é de madeira, a não ser a cozinha e o banheiro que são de cerâmica. Já no caso do KK, o apartamento dele era (ou a casa dele é) todo(a) acarpetado(a). Esqueci de perguntar como era esse carpete, mais baixo ou mais alto. E o modelo que ele comprou foi o Roomba, que só aspira, mas provavelmente com mais potência que o meu. Porém, ele disse que o bichinho aspirava a sujeira, mas a deixava cair mais à frente. Ele fez uns testes com papel picado e viu que não resolvia. Depois da limpeza, teria que fazer de qualquer forma uma limpeza complementar. E segundo ele, nem são tão exigentes com limpeza como se poderia pensar.
O outro relato que ouvi do Roomba foi positivo, sem nenhuma reclamação. Faltou saber do Carlos Germano a opinião dele, que parece que também não foi boa.
Pronto! Acho que agora ficou devidamente desesclarecido! Onde houver fé, que eu leve a dúvida! Qualquer coisa, faça como o KK: teste e se não gostar, vá à loja e devolva. É uma boa vantagem do consumidor canadense e nem precisamos dizer o porquê!

domingo, 5 de setembro de 2010

Robôs dos Jetsons, parte II


Quem é um tantinho mais velho como nós passou a infância assistindo o desenho animado dos Jetsons. Era uma família que vivia no futuro e tinha robôs para ajudar no dia a dia. Ainda lembro que o nome dessa robô ai era a Rose. Quando começei a ler sobre o robô que varre e lava o chão, a primeira sensação foi de ser uma piada. A segunda foi de ser um protótipo futurista. A terceira foi de ser algo proibitivamente caro. A quarta foi: Ei! O futuro já chegou e eu quero um!
Falei para um amigo do trabalho como se fosse uma novidade espantosa e ele me disse: -Ahh!!! Eu já vi. Um amigo meu tem um. Depois, vi no blog de outro colega de trabalho que eles tinham comprado. -Funciona mesmo? -Sim! Limpa de verdade.
Para quem tem piso de carpete ou muitos tapetes, boas notícias. A brincadeira começa em apenas 150$ comprado no Canadian Tire. É o modelo que só aspira, mas aspira bem, chamado Roomba. Para quem tem piso de madeira, cerâmica ou outros, acho mais interessante a linha da qual compramos o nosso, que se chama Scooba. Esse, de uma só passada, aspira o pó, lava, escova e aspira a água suja para um reservatório separado. E ele fica zanzando pelo compartimento de forma que passa várias vezes pelos mesmos lugares. Ele passa inclusive por baixo de sofás e outros móveis que tenham ao menos 9cm de altura. Ele tem 3 comportamentos que se alternam para cobrir a área toda: Espiral, seguir contorno e cruzar a sala. Essa linha começa pelo nosso modelo que custou 340$ com impostos e frete pela www.amazon.ca. Chegou em menos de uma semana.
Se vale a pena? Sim! Olhem a cor da água suja que ele guarda. A ideia de despejar na banheira foi boa para a foto, mas me custou ter que lavá-la depois. Eca!! Tudo por vocês, caros (nos dois sentidos) leitores!

O chão de madeira daqui ficou limpinho.É bem verdade que temos que enxaguar o tanque de água suja, lavar o pequenino filtro de nylon do aspirador, uma pecinha de borracha e a escova. Mas nada que 5 minutos não resolvam. Ele vem com um líquido desinfetante cheiroso que só dura umas 10 aplicações, mas podemos usar também vinagre branco ou mesmo só água. O manual recomenda deixá-lo sempre ligado na tomada enquanto não trabalha (claro!) para que a bateria dure mais. O chão ainda fica um pouco molhado, mas seca logo.
No nosso caso, o apartamento deve ter uns 110 metros quadrados e os nossos comedorezinhos de rapadura sujam pra caramba. Limpeza uma vez por semana tanto cansa, quanto gasta tempo, quanto não é suficiente. Com o super tampinha 3000, podemos limpar o chão do apartamento quase todo duas vezes por semana, e ainda de uma forma bem eficiente. Quando saio de casa, deixo-o trabalhando e quando voltamos está terminado. Às segunda-feiras ele limpa a sala de estar e a de jantar, terças-feiras os 11 metros de corredores em formato de T, quartas-feiras a cozinha, quintas-feiras as salas novamente, sextas-feiras os corredores novamente, sábados os quartos e domingo a cozinha novamente. Para os quartos, paramos no meio do seu ciclo de 45 minutos e o levamos para o outro quarto. Ele vem com uma barreira virtual infravermelha para limitar a área, mas fechar as portas tem sido suficiente.
Tipicamente canadense: máquinas mais baratas trabalhando para evitar o trabalho humano mais caro, que é melhor aproveitado em outras tarefas mais nobres. Já havia dito que a vida aqui sem empregada não é o fim do mundo, nem ficamos escravos do lar porque a vida aqui é mais prática. E agora então, está ainda mais prática, graças aos robôs dos Jetsons!
Bip, bip! -Xi!! E agora? Qual máquina apitou e para dizer o que?!?!





Robôs dos Jetsons, parte I


Como prometido, vou contar aqui como nós nos livramos de duas tarefas do lar que são um saco: lavar a louça e varrer e/ou passar o pano no chão. Eu passo o dia trabalhando para máquinas, fazendo programa...opa! Não é o que vocês estão pensando! Eu não conseguiria ganhar dinheiro nessa profissão com o meu biótipo! Digo, fazer software de computador! Melhorou? Pois continuemos. Nada mais justo que chegar em casa e descontar!!! Isso! Vamos botar as máquinas para trabalhar para nós também, para descontar!
Para alguns não é novidade, mas para quem lavava e passava roupa no Brasil, a  laveuse/lavadora de roupas e a sécheuse/secadora roupas, aliados a tecidos apropriados e macetes fazem com que economizemos esse tempo e cansaço como contei nessa postagem. Já vale um bocado. Não vou nem falar do microondas. Ahh!! Ia esquecendo o Pablo! É o nosso espremedor de laranjas que parece um pinguim e que me lembra o Pablo dos Backyardigans. O suco de laranja industrializado é tão ruim que eu perguntava se a Mônica tinha comprado no supermercado ou na farmácia!

A parte de lavar louças é fácil, né? Basta comprar uma máquina de lavar louças! Dããããã.... Mas se eu disser que essa solução foi a que me deu mais dor de cabeça. Na verdade, a novela começou antes de eu comprar, estamos usando-a e ainda nem terminou!
O problema inicialmente era o espaço. Os armários de cima são baixos para colocá-la no balcão da cozinha. Então, resolvi colocar em uma prateleira na área onde ficam a lavadora e secadora de roupas. Só que tinha que tirar uma prateleira para que coubesse. Os dois primeiros parafusos foram uma maravilha, porque são vis carrés/parafusos quadrados (o buraco é que é quadrado). Já os dois de trás, são Philips/estrela, entupidos de tinta, enferrujados e estrompados, quase redondos. Depois de alguns dias tentando, a solução foi usar o jeitinho...jeitinho BRUTO!!! PÁ!! POU!! IÁÁÁ!!! CRASH!!!  GRRR!!!! Pronto! Prateleira delicadamente esbagaçada! Ai vem o lado ruim de morar de aluguel. Eu não poderia nem colocar um prego na parede, mas tenho ainda um ano para me preocupar com isso (renovei o bail por mais 6 meses).
Pronto! Problema resolvido! Que nada! Vi mais de duzentos modelos (literalmente) de lava-louças paquidermicamente grandes! A esmagadora maioria segue o tamanho de embutir em uma seção de armário de baixo do balcão da cozinha: 80cm de altura, por 30cm de largura por 30 cm de profundidade. Eu até pensei em desmontar uma parte do armário, mas ainda tinha o problema de por onde passar as mangueiras de água e a energia.
Caline!/Porcaria! Eu tinha medido tudo e cabia nas prateleiras! Como é que só tem lava-louças imensas que não cabem?! Depois de me lamentar e chorar a noite inteira (Buaaaaa!! Buaaaa!!!), eis que no dia seguinte a Santa Mônica vem com a solução! -Tem um lava-louças portátil no Canadian Tire! -Onde, que eu fucei o site todo e não achei nenhuma?! -No jornalzinho! E não é que era justamente a marca e modelo que eu tinha usado como referência de tamanho! Danby DDW497W. E melhor que custou menos que os outros. Só 250$.
Hoje vi que é a mesma marca do nosso condicionadorzinho de ar de 100$, que desinstalei e guardei hoje. Corremos para o Canadian Tire para comprá-lo imediatamente antes que o estoque acabasse. Se você marcar a sua loja de preferência, o site diz se tem ou não em estoque.
Comprado e problema resolvido! Pantoute!/De jeito nenhum! (Nota do tradutor: Pantoute é um regionalismo québécois da expressão "pas du tout"). Quem disse que ela cabe no porta malas?! Mas ao menos cabia no banco de passageiros, só que tomava o lugar de alguém. A Mônica preferiu voltar de metrobus 802 e a Lara quis ir com ela, ao invés de esperar eu ir e voltar para pegá-los. Chegaram somente uns 5 minutos depois de nós! Tempo de espera na parada: 0 minutos!
Bom, desembalado o produto, quem disse que eu entendia o que diachos era uma peça que juntava a entrada com a saída de água?! Como é que eu vou juntar a entrada com a saída em apenas uma conexão? Depois de ler o manual mal explicado tanto em inglês, em francês quanto em espanhol, eu entendi que era para atarrachar na torneira da pia e a água saia por baixo da peça e caia na pia. Ahh! Mas eu não tenho pia e sim as conexões da máquina de lavar roupas, que inclusive já estavam ocupadas com essa. Para completar, as mangueiras são bem curtas porque foram feitas para ligar na torneira da pia. Ai, ai, ai!
Solução?! Home Depot! O shopping do lar. O "Tem de Tudo" de Fortaleza virou um tem de nada na frente dele! É imenso! Tem muita coisa de macenaria, como era de se esperar. Quando nós tivermos a nossa casinha... Depois de gastar meu francês entre tuyau/mangueira ou tubo, /a letra T, i grec/a letra Y, coude/cotovelo, trois quart de pouce/três quartos de polegada e outros termos específicos de plomberie/hidráulica (eu já tinha estudado-os antes de ir para lá), o cara me deu exatamente tudo que eu precisava, bem bizurado.

Agora sim, né? NÃO! A merde (nota do tradutor: Essa está fácil!) do cano de saída de água da lavadora de roupas é mais fino que o tamanho padrão de 1½" ou un pouce e demi/uma polegada e meia. Voltei lá e o cara quase que me disse: -Xi!!! Se f...undiu! Mas a educação canadense o fez dizer simplesmente que não tinha solução para o meu problema. Entrei no modo gambiarra bem ao estilo brasileiro. Achei um redutor de borracha com presilhas vissé/parafusadas que ficam por fora dos canos. O cara disse: Pode tentar, mas acho que vai vazar.
A solução quase deu certo, porque a mangueira da lavadora de roupas entra muito no Y e obstrui a saída de água da lava-louças. Agora vou procurar algo para encompridar o cano da lavadora de roupas, mas já estamos usando ambas mediante comutação manual. Se errarmos a mudança, o vizinho de baixo não vai ficar nada contente!

Essa lava-louças é menor do que a que temos no apartamento do Brasil, mas como a energia aqui é absurdamente barata, podemos acumular a sobra de uma lavagem para juntar com a próxima ou outras formas de contornar a lavagem manual.
Isso não evita termos que lavar algumas coisas como panelas grandes, mas já ajuda muito. Eu particularmente não acho nada legal lavar a louça, até porque me dá dor nas costas e também água bem quente da máquina esteriliza a louça e reforça a limpeza.
Eu começei por essa postagem para dar mais suspense para a parte mais interessante, que é o robô que varre e lava o chão, na segunda parte desse assunto.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Zilhões de pequenas coisas

É fácil perceber alguns aspectos bem marcantes da vida daqui como, por exemplo, a segurança que permite apartamentos que têm apenas uma parede de vidro separando a sala da rua. Mas é difícil de passar para vocês a satisfação que um simples passeio nos proporciona por estar repleto de pequenas surpresas agradáveis. São detalhes que isolados até passam desapercebidos, mas são tantos que fazem a diferença. Para ilustrar, vou mostrá-los dentro de uma pequena estória.
Era uma bela manhã de chuva. Epa! Normalmente é uma bela manhã de sol! Não importa o clima. O povo aqui sai de casa para curtir a vida, faça neve, faça sol (1). Fomos experimentar um programa que só conheciamos através dos filmes e desenho animados norte-americanos: Ir à biblioteca (2).
Tem uma há uns quatro quarteirões daqui (3). No Brasil, teriamos que ir de carro por causa da violência (4). Aqui, criamos o saudável hábito de andar muito, mesmo com o Davi de 3 anos (5). Casacos impermeáveis para todo mundo e vamos lá, afinal, a temperatura está bem agradável (6). A chuvinha fina nem molha a calça então nem precisamos de guarda-chuvas.
Ainda temos algum traço de associação de instituições públicas com algo de qualidade bem ruim. Então, ainda nos dá surpresa encontrar uma biblioteca muito bonita (7), com computadores para o público (8), multimídia (9), e uma seção infantil separada (10). Esta tem um acervo vasto, interessante e atual (11), com livros bem conservados (12).
Escolhemos os livros, mas será que dá para fazer a inscrição? Afinal, eu não havia levado nada! Vamos tentar. A funcionária sorridente foi super gentil e educada, que é muito comum por aqui (13). Basta uma identidade e um comprovante de endereço. Sabia que não ia dar certo!
-O senhor possui carteira de motorista?
-Sim.
-A sua carteira é suficiente, pois ela tem o endereço (14)!
Câline/caraca! (Nota do tradutor que voltou de férias: mais uma suavisação de palavrão, no caso câlice, para ficar socialmente aceita). Nem tinha reparado nisso! Não preciso do kit identidade, cpf, comprovante de residência, título de eleitor (que não existe aqui), alistamento militar com cópias autenticadas. Basta mostrar a carteira de motorista e para muitas coisas, posso enviar uma cópia simples dela por fax ou correios (15).
Pronto! Cadastro feito, já recebi na hora um cartão em PVC (16) válido em todas as bibliotecas públicas da cidade (ops! Não tem só essa. São 25 distribuidas em uma cidadezinha de apenas 500.000 habitantes)(17). Recebi um folheto com o regulamento e a moça perguntou se eu queria que ela explicasse como tudo funciona (18). Claro! E ainda assim, continuei matuto! Legal a parte na qual ela diz:
-Se o dia do vencimento dos livros for um feriado, mesmo assim, a qualquer hora você pode deixar os livros na caixa que fica do lado de fora da porta de entrada que os mesmos serão aceitos (19). Ou seja: não tem desculpa para atrasar!
-E para pegar os livros? Esperando que ela fosse registrar para mim.
-Passe o código de barras do seu cartão em algum terminal de auto atendimento (20), depois passe o código de barras de cada livro, colocando a etiqueta nesta parte para desmagnetizá-la. Se não fizeres isso, vai alarmar na saída (21).
Ainda estou com a mentalidade de que sempre tem que ter alguém fiscalizando tudo, senão algum """"""esperto""""" se aproveita. Ahhh, comedor de rapadura! Mas com um sistema anti-roubo desses, como é que alguém vai fraudar? Não sei, mas os caixas self-services dos supermercados são bem mais fáceis de serem enganados (22). Melhor! Nunca tem ninguém para saber se você vai entrar para pagar ou não a gasolina que você mesmo colocou no seu carro! (23) Apesar disso, prefiro a praticidade do débido automático na própria bomba (24).
E para terminar, como de praxe, a informática aqui normalmente funciona muito bem e torna a vida prática e reduz custos (25). No site www.bibliothequesdequebec.qc.ca podemos consultar o acervo, fazer reservas, ver os livros que pegamos e sermos avisados por email da disponibilidade de reservas ou de atraso, dentre outras funcionalidades (26). Acabei de ter mais outra surpresa durante as minhas pesquisas. A biblioteca tem Internet sem fio para o público! (27)
O mais valioso: Poder desenvolver nos nossos filhos o gosto e hábito pela leitura (28) por ter muitos títulos interessantes, inclusive em inglês também (29). E de quebra, achamos um livro que, apesar de ser concebido para alfabetizar crianças, é muito bom mesmo para nós adultos aprendermos a fonética associada aos grupos de letras em francês (30).
Como podem ver, em um resumo de um evento simples pude contar 30 agradáveis detalhes (o número fechado foi mera coincidência, juro!). Adicione os muitos que não lembrei, outros mais que não tenho como transmitir a vocês como a paisagem colorida da primavera no caminho e ponha isso no dia a dia dos 5 meses durante os quais estou morando aqui.
Isso me faz lembrar do que o amigo Júlio Falcão, que agora mora na Austrália me disse, repassando o que haviam lhe dito:
"Que você encontre lá o que estás procurando, seja este o que for".
Pois bem, achei bem mais do que procurava!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Jogando as recordações de uma vida no lixo


Tirei o dia de hoje para fazer uma triagem do pouco que vou levar para o Canadá, do que alguém vai aproveitar e de muito que vai literalmente para o lixo. Foi um latão de lixo lotadão de objetos e documentos que contam a minha história.
O que dá uma sensação de perda não é o objeto em si, mas a história e emoções que estão associados a eles. Dou só alguns exemplos de alguns lixos que tem valor sentimental: O videocassete que foi presente de casamento dos amigos do trabalho; O CD Player de inauguração da era CD que usava em um sonzinho adaptado (gambiarra) para não deixar meu irmão quebrar. No mesmo dia em que eu liguei no som da sala, o "maninho" afundou a tecla play que ela caiu; As medalhas de tiro, sendo uma de primeiro lugar da categoria iniciante; O certificado do curso de natação da Escola Técnica que me recorda o treinamento puxado da equipe de natação, da sensação ruim de cair na água gelada cedo da manhã e andar mais de 2 Km de volta para casa quando esquecia o dinheiro do ônibus.
Dentre os objetos que vão ser doados para amigos, o teclado e o violão, até que não vão ser difíceis de me separar, mas a guitarra... Tenho essa guitarra desde adolescente. Toquei em algumas bandas e fiz algumas apresentações com ela. Cheguei a deixar uma outra guitarra de marca famosa (Ibanez) de enfeite no palco como reserva porque, apesar da minha guitarrinha ser nacional (Giannini), o som dela era melhor. Ela está associada a todas as boas emoções das músicas que toquei com ela, somadas às ansiedades, nervosismo e adrenalida das apresentações que fiz.
E olhe que me considero um "coração de gelo"!
Mas continuo firme e forte na minha resolução: Vida nova é vida nova. Vou até cortar o cabelão de roqueiro bem curto! Pretendo chegar no Canadá apenas com uma malinha pequena.