A saga de uma família de retirantes cearenses, comedores de rapadura,
rumo à terra onde a Cana dá.
Fortaleza -> Ceará -> Brasil -> Canadá -> Quebéc -> Québec
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domingo, 14 de outubro de 2012
Quebec speaks french
E vamos nós a mais um assunto polêmico, mas inevitável para quem vive no Québec: a defesa do francês.
Como vocês sabem, o Québec tem como idioma oficial o francês. Existem estudos que dizem que o francês no Québec está em declínio e até mesmo ameaçado de extinção daqui a algum tempo. Há algumas décadas atrás, os québécois que não falavam inglês ficavam excluidos de alguns serviços que não eram disponibilizados em francês.
Não precisamos nem regredir no tempo. Nos dias de hoje mesmo, ouço queixas de alguns imigrantes que disseram que quando fizeram o landing em Toronto, não tinha ninguém que falasse nem um mínimo de francês no setor de imigração. Eu cheguei aqui falando inglês bem melhor que francês, mas fiquei incomodado, por exemplo, com o atendimento da Fedex. Ele me dava a opção de serviço em francês digitando 2. Eu fazia isso e continuava tudo em inglês. Eu desligava e tentava novamente só para confirmar e sempre continuava em inglês. Até aí, nada demais para quem tem paciência suficiente para criar dois filhos. Mas quando a mulher ia confirmar meu endereço, tentava mas não conseguia pronunciar o nome da rua nem em inglês. Daí...
(soletrando rápido em inglês) bi, i, el, vi, i, di, i, ar, i -> b, e, l, v, e, d, e, r, e -> Belvédère ahhhh!!! Sim é essa avenida mesmo!
Certo, começa a ficar chato. Mas então, ela teve que dizer o endereço da Fedex em Québec para eu ir pegar a encomenda e lá vai soletrar o outro endereço! Pode ter sido azar, mas não foi o único caso que não tive a opção do francês.
E nessas situações, eu penso na pessoa que mora no lugar onde nasceu e que não sabe o que aconteceu com a sua encomenda porque a empresa que tem atuação aqui não falava o idioma oficial do local. Essa pessoa deveria falar inglês, visto que é o idioma falado pela grande maioria dos 33 milhões de canadenses, pelos 314 milhões de estadunidenses vizinhos e pelo resto do mundo que o considera como o idioma mais universal? No meu ponto de vista, sim. Mas não recrimino quem pensa que não deve ser obrigado a aprender outro idioma estando "em casa".
Por uma questão de respeito a cerca de um quarto da população canadense, a esfera federal é totalmente bilíngue (ou deveria ser). E em defesa do cidadão québécois, o governo do Québec instituiu a lei 101 ou Charte de la langue française pelo primeiro governo do PQ em 1977. Existe até o Office québécois de la langue française (OQLF) para fiscalizar o cumprimento dessa lei, dentre outras atribuições.
Vendo por esse lado, tudo bem. Mas, porém, todavia, contudo, entretanto, no entanto, tem horas que isso vira exagero.
-Ei! Por que trocaram o meu teclado?
-Trocaram TODOS os teclados da empresa!
-Por que?
-L'Orifice de la langue française!! (trocadilho de ofício com orifício)
-Não entendi! O que tem a ver um com o outro?
-Teclado em francês!
-Mas eu já usava o layout Canada français no antigo teclado.
-Não é o layout. É o teclado mesmo! As teclas enter, esc, del, alt, ...
-Estás brincando, né? Trocar todos os mais de 300 teclados por causa de umas abreviaçõezinhas que ninguém nem lê?!?!?!
-Não é brincadeira. É para ficar conforme.
Quack!!!!!!
Depois veio o comunicado de que a empresa estava seguindo os procedimentos para tirar o certificado e assim ter direito a participar de concorrências do governo e para ter reduções fiscais. Por isso, tinhamos que colocar em francês primeiro a assinatura dos emails, a mensagem de voz do telefone, todos os avisos, etc. porque haveria uma fiscalização. O fiscal conversaria com algumas pessoas e poderia até mesmo pedir para mostrar emails para ver se o funcionário estava escrevendo em francês.
Eu achei um pouco passando dos limites, visto que trabalhamos em uma empresa mundial e só a minha equipe, como exemplo, se relaciona com muita gente dos EUA, Hungria, Ucrânia e Polônia. Outra coisa ridícula é a notícia que OQLF está querendo forçar empresas como Best Buy, Costco, the Gap, Old Navy, Guess e Walmart a usarem também um nome francês. Pôxa! São nomes próprios! Se continuarem assim, vão querer que o nome inglês de mulher Stephanie vire nome francês de homem Stéphane!!!
Fazendo a ponte com a postagem do separatismo e a da volta ao poder do PQ, agora a ministra da educação da titia Pauline Barroada está falando em reduzir o ensino de inglês e aumentar o de história. A ministra diz em sua defesa que é em nome da prudência na adoção do inglês intensivo na sexta série e que deve começar o inglês normal na segunda série ao invés de na primeira para não atrapalhar o francês. Também, ensinar história do Québec é importante. A meu ver e conhecendo as ideias do PQ, vou com a oposição que acha que ela quer na verdade é reduzir o ensino de inglês em defesa do francês (que não são necessariamente opostos) e introduzir conteúdo ideológico de separatismo no ensino. Teoricamente, os profissionais de educação que deveriam ditar o conteúdo didático, mas a ministra fala sim no conteúdo que ela acha relevante. Eu me estressei com essa do PQ(ou PQP?), mas um amigo já me acalmou dizendo que para mudar isso, tem que mudar a lei e a oposição não vai deixar.
Como disse, não tenho nenhum medo de que o Québec se separe. Mas me incomoda o radicalismo e a desordem que vão causar na tentativa. Um dos motivos de termos vindo para o Québec é porque gostamos de francês. Mas não nos tirem o direito de aprender e falar inglês impondo o francês!
domingo, 14 de novembro de 2010
Difícil de traduzir
-Entendeu o que ele disse?
-Sim.
-E o que foi?
-Ehhh..
Parece mentira, né? Se entendeu o que foi dito, e tem uma alta capacidade de expressão em português, como é que ainda tem que parar para pensar em como vai dizer? A questão é que existem frases que têm uma estrutura ou sutilezas que passam de longe sem nenhuma equivalência em português. E eu, para completar, sou perfecionista e não gosto de passar só a ideia geral perdendo os detalhes. Dou dois exemplos:
"Tu est pas mal drôle!". O pas mal é equivalente a "nada mal". Para explicar, vou começar com outra frase: "C'est pas mal froid". Quer dizer "o frio não está nada mal". A primeira frase quer dizer que tu estás engraçado, somado a ideia do nada mal. O mais próximo que encontrei foi "de engraçado, tu não estás nada mal".
Em inglês, tenho como exemplo o trocadilho "I'm a dam engineer". Se eu somente traduzir, vai ficar "eu sou um engenheiro de represas". Porém, dam é homônimo homófono de damn, que significa ao pé da letra maldito mas tem outras sutilezas. Caramba! Detonei no homônimo homófono, hein? Quer dizer que as duas palavras têm a mesma pronúncia. Então, a frase soa ao mesmo tempo como "eu sou um engenheiro de represas" e "eu sou um puta engenheiro". Desculpem o palavrão, mas damn também soa como palavrão e serve como enfatizador. E essas sutilezas são bem difíceis de serem expressadas e principalmente para falar sem muito tempo para pensar.
E para matar qualquer tradutor, tem a frase que foi feita de propósito para ser impossível de ser escrita. "Un sot avait pour mission de faire parvenir le sceau d'un seigneur à son roi. Il l'a mis dans un seau et est parti à cheval. Le cheval a fait un saut et les trois ..... sont tombés". Que dizer: "Um idiota tinha como missão levar um carimbo de um senhor a seu rei. Ele o colocou dentro de um balde e saiu a cavalo. O cavalo deu um salto e os três ..... caíram. Sot/idiota, sceau/carimbo e seau/balde se pronunciam do mesmo jeito (lembram dos homônimos homófonos ?). Quando falada a frase, usamos no espaço pontilhado essa pronúncia para dizer que os três elementos cairam ao mesmo tempo. Porém, cada uma se escreve de uma forma diferente.
E aí?
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Faça atenção à lingua mãe
O título dessa postagem foi propositadamente escrito assim, de uma forma esquisita, para ilustrar um fenômeno que acontece com quem vive em um ambiente que tem uma língua diferente da materna. A frase original seria "Fais attention à la mother langue". Já forma mais usual no português seria "Tenha cuidado com a língua materna". Mais esquisito ainda é saber que com algum tempo, se não cuidarmos, podemos falar assim sem nem percebermos. Mas para o brasileiro que vive no Brasil, vai soar esquisito como gringo falando.
Eu já estava querendo escrever sobre esse assunto, mas apareceu uma motivação mais forte. Tudo começou quando encontramos por acaso um brasileiro com a sua filha que também moram aqui. Vou deixar no anonimato porque não sei se ele se incomodaria com a publicação. Ele me parecia meio paranóico com a questão das crianças vivenciarem bem o português. Coisas do tipo só falar português em casa, desenhos animados em português via Internet ao invés dos das tv's daqui. Ele perguntava, por exemplo, se tinhamos amigos brasileiros que tinham crianças para que nossos filhos conversassem em português, e por aí vai.
Determinada hora, não sei como, mas ele contou a estória que explica essa postura. Ele é filho de pais não brasileiros. No começo, falavam o idioma materno em casa mas depois de algum tempo, passaram a conversar somente em português. Ele disse que começou a esquecer o idioma materno e depois, perdeu a capacidade de se comunicar neste.
A parte que me tocou foi dizer que a sua avó gostava muito dele, mas apesar de querer muito, não conseguia conversar com o seu neto pois não falava português. Por isso que ele insistia muito para que a filha não perdesse o português.
Eu sabia que as crianças podiam perder um idioma, mesmo sendo o materno, mas não sabia que era fácil assim. E mesmo os adultos não perdendo a capacidade de se comunicar, existe uma tendência de falar esquisito como extrangeiro. Vejo muitos brasileiros cometendo erros de português influenciados pelo francês sem perceber, como por exemplo: "Eu tenho um acento (sotaque) muito forte em francês"; "Eu adoro patinagem"; "Ele vai ir ao trabalho", "...ai eu acionei a vila (prefeitura, Ville de Québec, Ville de Montréal, etc.)", "Não depasse o colega na fila.", "Fiz por habitude (costume, hábito)", "Essa palavra tem dois sensos (sentidos)" e "Faça atenção! (tenha cuidado)". E existem também as interferências que não são erros de português, mas que denunciam por não serem a forma mais usual como: "Isso é bizarro (e nunca dizer esquisito)", "Não importa qual (qualquer um)" e por aí vai. Se eu começar a escrever assim, por favor me avisem! Eu me policio muito, mas pode acontecer.
Outro caso foi uma família que conheci no parque aqui perto. Os pais e as duas filhas estavam conversando em inglês impecável. Quando foram brincar com a Lara, as duas falavam francês também impecável. Começei a conversar com os pais em inglês porque não sabia se falavam francês. O pai nasceu em Nouveau-Brunswick e tem o inglês como lingua materna, ao contrário da mãe das meninas. Mas os pais dele convencionaram de alternar um dia falando em cada idioma. Como aqui em Québec o francês está muito presente, esse casal resolveu só falar em inglês em casa para tentar equilibrar. "Não queremos que as nossas filhas percam o inglês que já falam".
Moral da estória? É difícil aprender um novo idioma e é um desperdício perdê-lo. E isso acontece! Eu estou extremamente incomodado porque já tentei várias vezes e não consigo mais conversar em espanhol como eu fazia no Brasil, quando tinha que me relacionar à trabalho com argentinos, chilenos, uruguaios, etc. Aqui tem muitos latino-americanos que falam espanhol. Temos que praticar e manter o que já adquirimos com tanto esforço. Até concordo que nos primeiros meses seja importante falar francês ou inglês em casa para ajudar na adaptação, mas depois de alguns meses, quando todos já estiverem com um nível razoável de conversação, também acho igualmente importante manter o português em casa.
Eu, eu penso que sim. Pensais vós como isso? (Essa foi de propósito também!)
sábado, 3 de julho de 2010
Farofa cearense made in Africa
-Mônica, ainda num tinha acontecido, mas bateu uma saudadi da farofa du Ciará! -Vixe Maria! Eu também! -I ondi é que nóis vamu incontrá farinha de mandioca aqui? (Nota do tradutor: Hein? O que é isso?) -Bom, tem umas épiceries aqui no jornalzinho (Nota do tradutor: Ahh! Isso eu reconheci. É francês.São lojas que vendem temperos e outros produtos para cozinhar. "Especiarias").
Lái vai eu procurá a farinha di mandioca. -Je cherche fareine de mandiocá, s'il vous plaît. -Quoi? Ops! Achu qui num tá in francêis ainda não. Mas num tinha mermu! Di épicerie in épicerie, i di pergunta in pergunta, descobri qui u nomi certu era farine de manioc. Mais só mi mostraru fecule de manioc ou farine de tapioca (Nota do tradutor: Não vou traduzir porque são cognatíssimos! Isso mesmo, aqui tem tapioca, mas é tipo um iogurte com grãos da goma de mandioca). Quarta épicerie i néca! Arri égua! Ao menus a muié mi deu u endereçu di outra qui ela acha qui teim. (Nota do tradutor: AAAHHHH!!! Que droga é essa! Desisto! Tchau!).
Ô ruazinha fia duma égua! Curva prá lá, curva prá cá e nada du número 92! Opa é aqui! "Epiafrica. Marché Exotique International (afro-latino-américain)". Direpenti, o cabra mi mostra um saco i diz: -Não sei se é exatamente o que queres, mas é isso o que eu tenho. -I cadê u nomi? Quiria confirmá qui era di mandioca mermo. -Está aqui! -Gari?!?!?! -Sim! -I é di mandioca?-Sim! Tá bom.
Pensi numa farofa só u mi! Matamos a saudadi e já sabemu ondi é qui tem. A Mônica dissi qui in outra tem até rapadura! Mininu!!! Tamu cheganu pertu! I aqui in Québec!
Se você não é cearense e teve o saco de ficar tentando decodificar até agora, vai saber que foi com duplo propósito. O primeiro é saber que mesmo as coisas mais regionais e/ou específicas podem ser encontradas aqui, mesmo sendo uma "cidadezinha" de 500.000 habitantes e não um dos grandes centros. Não garanto tudo, claro!
O outro propósito é fazer um paralelo entre o francês québécois e o que se fala no Ceará. Entre o português neutro ("standard") e o extremamente regional, já bem povão e que é considerado um dialeto e não somente um sotaque, existem uma imensa gama de possibilidades. Inclusive uma mesma pessoa pode variar a forma de falar de acordo com o público alvo, atenuando ou refoçando o dialeto.
Pois o que acontece aqui no Québec é semelhante. Nos noticiários, ouve-se um francês standard ou internacional bem parecido com o da frança, que também tem lá suas variações. Já o fazendeiro do interior ou mesmo o povão das cidades maiores pode chegar no extremo que é o joual que, por incrível que pareça, é uma deformação da palavra cheval............ ou cavalo. Cadê o tradutor?
Então, muitas vezes o que se diz que é isso ou aquilo denominando de francês québécois na verdade faz referência ao modo mais regional de se falar, mas o modo mais standard que os jornalistas usam também é québécois, assim como nem todo cearense fala dirliga u rezistru (desligue o registro).
E cadê a rapadura? Se eu achar, em aviso!
sexta-feira, 14 de maio de 2010
O que o gelo nos ensina
Esquisito o título, não? Como pode um objeto inanimado nos ensinar algo?
A Lara vai bem na escola. Ela já fala algumas frases em francês e aprende rápido, mas o tempo durante o qual ela está na escola é pouco para que ela possa conversar. Por isso, ela ainda não fala na escola, embora entenda muita coisa e tenha boas amizades. Porém, nesta semana, ela resolveu responder présent/presente durante a chamada. Os colegas começaram a rir. A professora logo tratou de explicar que não se deve fazer isso e pediu para que aplaudissem a iniciativa dela. Criança é espontanea e ri sem maldade. E a Lara pronuncia muito bem. É tanto que eu corrijo a minha pronúncia pela dela em certas palavras que ela conhece melhor. Provavelmente riram porque não esperavam que ela respondesse dessa vez.
Mas quando a Mônica me contou isso, fiquei com um aperto no coração. Hoje a Lara é bem desinibida e fazia apresentações de dança para um público que lotava o grande auditório. Mas antigamente ela era super tímida e ficava muda quando encontrava alguém pelas primeiras vezes. Definitivamente não é um bom primeiro passo, mas um escorregão inesperado, seguido de uma queda.
E hoje foi a minha vez. Cheguei super empolgado no trabalho com a vitória dos Canadiens de Montréal que eliminaram o adversário estadunidense por 5 a 2 e foram para as semifinais da copa Stanley de hockey. Eu puxei a conversa mas em poucos segundos os colegas de trabalho começaram a conversar falando muito e em pouco tempo. É o tipo de conversa muito dinâmica onde as pessoas disputam uma oportunidade para falar. Devido a minha limitada capacidade de expressão, fiquei excluido do grupo. O almoço foi em um restaurante perto do trabalho para comemorar a contratação do novato que está trabalhando há umas duas semanas e o fim de uma etapa difícil do trabalho. Não deu outra. O novato, que é québécois, se integrou muito rapidamente, já contando estórias e fazendo piadas. E eu nem mesmo as entendia porque além de falarem rápido e mais displicentemente, tinha barulho no restaurante. Entre os risos dos bate papos animados, ao menos pude conversar um pouco com o indiano que, apesar de morar aqui no Québec há cinco anos e entender bem o francês, também ficou literalmente de canto como eu. No caso dele, acho que mais por ser muito sério.
Novamente, não fazem por mal mas sim por ser algo natural conversar e se divertir, mas é difícil para mim porque gosto muito de interagir com as pessoas. Me senti como a Lara na escola.
De repente, quando menos esperamos, estamos caídos no gelo, avaliando o que está machucado, doendo, e vendo as outras pessoas de baixo para cima com um sorriso no rosto por causa da nossa queda. Criança cai quando está aprendendo a andar e por alguns anos mais por não dominar bem os movimentos em todas situações. Mas quando um adulto cai, dói no corpo mas também no orgulho. É humilhante e vergonhoso para nós adultos cair. Mas não no gelo!
Quando ensinava a Lara a patinar, mostrava para ela. Veja só. Todo mundo cai, ri, se levanta e daqui há pouco, cai outra vez. É normal e até os mais experientes e hábeis de vez em quando cometem algum deslize e caem também. Os jogadores que hockey passam o jogo caindo, mas muitas vezes conseguem se levantar de um salto e continuar na mesma jogada. Após algum tempo, ela percebeu o que eu queria dizer que o importante não é evitar ao máximo a queda, mas sim saber se levantar, não desistir e continuar treinando. Foi nessa hora que ela, mesmo caindo mais, passou a aprender mais rápido e a se divertir mais. E com o tempo, ganhamos habilidade e desfrutamos cada vez mais, caindo cada vez menos.
É isso que o gelo nos ensina como metáfora para a vida. A Lara passou a responder a chamada todo dia e ninguém mais ri dela. Já no meu caso, depois desse mesmo almoço, consegui fazer com que meus colegas dessem algumas boas gargalhadas, mesmo falando errado, misturando com inglês e fazendo mímicas.
domingo, 9 de maio de 2010
4 meses. E aí? Valeu a pena?
Já não vemos mais a cidade como turistas. Muita coisa não é mais novidade e sim rotina. Em uma esquina da blv. Charest tem uma pedinte de sinal com uma mensagem em um papelão. Três quarteirões mais à frente, é um cara de visual maluco que pede uns trocados. E depois desse trecho, tem um engarrafamento longo na hora do rush. Teve mais um episódio de corrupção no governo provincial. Vai chover durante esse final de semana todo e tomei uns banhos de chuva a 5 graus para colocar e tirar as compras no carro. Chuva de molhar mesmo e estava sem luvas!
E aí? Valeu a pena?
Para dar um ar de suspense, peço desculpas pela mentira. Ainda faltam 7 dias para completar quatro meses. Ia escrever com três meses, mas resolvi esperar até a situação na qual estamos agora e depois descrevo-a.
Voltando a pergunta shakespereana (ser ou não ser, eis a questão), bom, eu começei o post fazendo drama para criar um falso clima de decepção, mas eu nasci para morar aqui! Me identifico demais com tudo, tudo, até com o frio. Não quero nem falar mais da minha paixão por essa terra e essa gente para não exagerar as expectativas dos futuros imigrantes. A Lara é outra que adora tudo daqui. Precisavam ver a ansiedade dela para ficar mais tempo na escola com a nossa nova rotina. O Davi agora fica em uma garderie que tem, dentre outras crianças, um coleguinha do potencial elétrico dele, e está finalmente imerso em um ambiente francófono. Está aprendendo até árabe! Conto essa no fim do post. E a Mônica, ou melhor, Monica Martins, que se pronuncia Monicá Martan (que sobrenome chique!) e não tem mais o acento, era a que estava menos contente. Só ficava em casa cuidando desta e do Davi, o que não era lá muito interessante. Ressaltei o nome francês porque agora ela está no curso de francisação em tempo integral, ou seja, também imersa no ambiente francófono e ao mesmo tempo inserida em um grupo social. Agora sim! Já faz uma semana que estamos todos no que chamo de fase dois da imigração: Todo mundo fora de casa de dia, convivendo com québécoises, aprendendo francês, absorvendo a cultura e valores, se integrando e adaptando cada dia mais.
Realmente, ao menos em Québec, a qualidade de vida é um enorme atrativo: A porta da varanda para a rua, que fica a meio andar de altura mas facilmente escalável só fica tracada se o Davi mexer, não sei mais o que é preocupação com segurança e violência. A foto do post é de um apartamento vizinho que tem o lado voltado para a rua totalmente de vidro, de parede a parede, do chão ao teto e sem absolutamente nada entre este e a rua. E um brasileiro amigo meu mora eu outro apartamento assim. Às 05h00 da tarde já estou brincando com o Davi no carro, de volta para casa e a Mônica já está lá com a Lara, assim temos mais tempo para a família. Se não tiver chovendo, dá para brincarmos no parquinho público que tem brinquedos muito interessantes até o sol se por, que no momento, está sendo às 08h00 da noite. Final de semana de sol e temperatura acima de 20 graus está ficando comum e a cidade toda aproveita.
Respondendo a pergunta outra vez: No nosso caso, sim! Valeu a pena demais. O que nós procurávamos, achamos aqui.
Ministério da Imigração adverte: Não necessariamente vai valer a pena para o seu caso!
Anexo A:
Quanto à estória do Davi aprender árabe, foi assim. A Nacima, que é a santa que atura o Davi e o outro pimentinha, me perguntou se português era parecido com árabe. Fiquei curioso porque a pergunta é bem esquisita. Ela explicou:
-É que eu sou marroquina e o Halmstad (se o nome do outro menino não for esse, é algo parecido) é argelino. Normalmente falo com ele em francês, mas tem horas que ele não entende e então falo em árabe, já que é nossa língua materna. Muitas vezes o Davi obedece e faz o que eu peço, mesmo que o Halmstad fique parado. Por isso que achei que português talvez fosse parecido com árabe.
-Não é nada parecido. E me surpreendo também de ele te obedecer falando em árabe porque em casa nós falamos em português e ele não obedece quase nada!
Aí vocês dizem: Que legal! Está aprendendo português, francês, inglês e árabe! Muito bem! Mas vai dar um trabalhozinho para entendê-lo, já que ele começa a misturar o português com algumas palavras dos outros três idiomas!
E aí? Valeu a pena?
Para dar um ar de suspense, peço desculpas pela mentira. Ainda faltam 7 dias para completar quatro meses. Ia escrever com três meses, mas resolvi esperar até a situação na qual estamos agora e depois descrevo-a.
Voltando a pergunta shakespereana (ser ou não ser, eis a questão), bom, eu começei o post fazendo drama para criar um falso clima de decepção, mas eu nasci para morar aqui! Me identifico demais com tudo, tudo, até com o frio. Não quero nem falar mais da minha paixão por essa terra e essa gente para não exagerar as expectativas dos futuros imigrantes. A Lara é outra que adora tudo daqui. Precisavam ver a ansiedade dela para ficar mais tempo na escola com a nossa nova rotina. O Davi agora fica em uma garderie que tem, dentre outras crianças, um coleguinha do potencial elétrico dele, e está finalmente imerso em um ambiente francófono. Está aprendendo até árabe! Conto essa no fim do post. E a Mônica, ou melhor, Monica Martins, que se pronuncia Monicá Martan (que sobrenome chique!) e não tem mais o acento, era a que estava menos contente. Só ficava em casa cuidando desta e do Davi, o que não era lá muito interessante. Ressaltei o nome francês porque agora ela está no curso de francisação em tempo integral, ou seja, também imersa no ambiente francófono e ao mesmo tempo inserida em um grupo social. Agora sim! Já faz uma semana que estamos todos no que chamo de fase dois da imigração: Todo mundo fora de casa de dia, convivendo com québécoises, aprendendo francês, absorvendo a cultura e valores, se integrando e adaptando cada dia mais.
Realmente, ao menos em Québec, a qualidade de vida é um enorme atrativo: A porta da varanda para a rua, que fica a meio andar de altura mas facilmente escalável só fica tracada se o Davi mexer, não sei mais o que é preocupação com segurança e violência. A foto do post é de um apartamento vizinho que tem o lado voltado para a rua totalmente de vidro, de parede a parede, do chão ao teto e sem absolutamente nada entre este e a rua. E um brasileiro amigo meu mora eu outro apartamento assim. Às 05h00 da tarde já estou brincando com o Davi no carro, de volta para casa e a Mônica já está lá com a Lara, assim temos mais tempo para a família. Se não tiver chovendo, dá para brincarmos no parquinho público que tem brinquedos muito interessantes até o sol se por, que no momento, está sendo às 08h00 da noite. Final de semana de sol e temperatura acima de 20 graus está ficando comum e a cidade toda aproveita.
Respondendo a pergunta outra vez: No nosso caso, sim! Valeu a pena demais. O que nós procurávamos, achamos aqui.
Ministério da Imigração adverte: Não necessariamente vai valer a pena para o seu caso!
Anexo A:
Quanto à estória do Davi aprender árabe, foi assim. A Nacima, que é a santa que atura o Davi e o outro pimentinha, me perguntou se português era parecido com árabe. Fiquei curioso porque a pergunta é bem esquisita. Ela explicou:
-É que eu sou marroquina e o Halmstad (se o nome do outro menino não for esse, é algo parecido) é argelino. Normalmente falo com ele em francês, mas tem horas que ele não entende e então falo em árabe, já que é nossa língua materna. Muitas vezes o Davi obedece e faz o que eu peço, mesmo que o Halmstad fique parado. Por isso que achei que português talvez fosse parecido com árabe.
-Não é nada parecido. E me surpreendo também de ele te obedecer falando em árabe porque em casa nós falamos em português e ele não obedece quase nada!
Aí vocês dizem: Que legal! Está aprendendo português, francês, inglês e árabe! Muito bem! Mas vai dar um trabalhozinho para entendê-lo, já que ele começa a misturar o português com algumas palavras dos outros três idiomas!
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Se le portê estiver fechê, pule por riba.
Atendendo a pedidos da leitora Pat, vou contar um pouco da minha odisséia francófona.
Era uma vez, um menino cujo pai adorava idiomas estrangeiros. Quando tinha cerca de 10 anos, o pai lhe ensinava as cores em francês e algumas palavras como table/mesa, chaise/cadeira e crayon/lápis. Isso lhe rendeu até uma piada do avô que, muito bem humorado, inventou essa mistura de francês com o dialeto cearense só para dizer que é muito fácil: Se le portê estiver fechê, pule por riba/se o portão estiver fechado, pule por cima. (nota do tradutor: Eu já não tenho cores para pintar tanto dialeto maluco!). Mais que algumas palavras, este menino ganhou uma boa base fonética, e também um gosto forte por idiomas. Sabem como é, né: Filho de peixe não morre afogado!
Aprendi o inglês e o espanhol (ou portunhol) porque são, ou melhor, eram os idiomas mais presentes no meu estudo e trabalho. Porém, o gosto por francês sempre esteve lá e depois da obrigação, comecei a estudá-lo por satisfação pessoal, sem pretenção nenhuma. Então, nas minhas poucas horas vagas, aprendia sozinho via Internet e assistia a TV5, embora não entendesse P.N. (Tradução politicamente correta: Praticamente Nada). Reconhecia palavras, mas não dava para encadeá-las nas frases para pegar a ideia toda. Para falar, era a mesma dificuldade.
Eis que, precebendo que a Mônica chegaria no Canadá sabendo mais francês mesmo começando do zero, que inglês continuando do que já sabia, meu sonho de morar em um lugar bilingue fica mais próximo. E mais: os idiomas eram francês e inglês.
Só que tinhamos poucos meses para fazer essa proeza. É aí onde entra em cena o Ruy, um professor particular de francês de Fortaleza. Por ele passam muitos dos Fortalezenses que vêm para o Québec. Ele conseguiu fazer um verdadeiro milagre. Com somente 36 horas aula, eu passei do nível de montar somente umas frases bobas e não entender um diálogo normal ao nível de ter mais de uma hora de entrevista por telefone, e ser contratado. Antes mesmo da entrevista, foi ele que me pediu, a título de exercício prático, para fazer um currículo em francês e mandar para uma oferta de emprego real. Parece mentira, mas foi assim que eu consegui o meu bom emprego daqui, ainda estando no Brasil.
Quando cheguei aqui, percebi que conseguia resolver os problemas como o Ruy me recomendou: "Não se preocupe por não falar bem como você gostaria e não deixe de falar por isso. O importante é se comunicar e resolver o que precisa. E isso você já faz".
Mas, sendo bem sincero, tem horas que não dá mesmo para entender! Por telefone a inteligibilidade é pior. Também se falarem rápido, o nosso processadozinho estoura. E, além dos problemas normais de comunicação que os imigrantes têm quando vão para as províncias anglófonas do Canadá, temos um outro que se chama français québécois/francês quebequense! Isso sem mencionar que muitos de nós temos que falar o inglês também.
Já ouviram um português falando? No começo, nem percebemos que é o nosso mesmo idioma. Depois é que começamos a sintonizar o ouvido. Pois assim é o francês québécois que se diferenciou do da frança pela distância. Quão diferente é do francês da frança que estudamos no Brasil? O suficiente para entendermos tudo que o cara do documentário fala, mesmo falando rápido, mas ao mesmo tempo, não entender nenhuma palavra do que a senhora disse no supermercado, mesmo repetindo a mesma frase três vezes. Algumas pessoas usam um sotaque mais neutro, mais standard: Os apresentadores de televisão, os mais cultos e, de certa forma, os mais jovens (adolescente é outra estória). É o reflexo das comunicações que deixam o mundo globalizado mais próximo. Por outro lado, os outros que carregam no sotaque...xiii!!! Demorou para eu acreditar que o pô, lô e çô eram o pas/não, là/lá e ça/isso que eu esperava ouvir. Também chega a ser engraçado como o je suis/eu sou, simplesmente some e vira um chiado como shh e sem nenhum som vocálico. Dá até para fazer uma frase sem vogal: Je suis petit/eu sou pequeno, que vira shh p'tss. É tanto que muitos escrevem p'tit até em progadandas e produtos. Para compensar, algumas palavras tem um "degradê" prolongado de sons vocálicos como faire/fazer que se pronuncia tipo fááaaeeeeiiiire e tâche/tarefa que vira tááaaoooouuuche.
Também existem diferenças de vocabulário, como usar embarquer/embarcar e débarquer/desembarcar para ônibus e até para a gangorra do parquinho. E uma diferença bem propensa a uma boa gafe do que as refeições: déjeuner que na França é almoço, aqui é o café da manhã. Dîner que lá é o jantar, aqui é o almoço. E souper, aqui é o jantar e os franceses dizem: Ahh! Como se chamava muito antigamente, né?
Mas nada como o tempo para desenvolver o aprendizado e resolver esses problemas. E a galera daqui ajuda! A empresa banca duas horas de curso de francês por semana e a Mônica vai começar a francisação em tempo integral recebendo 460$/mês, fora uma ajuda de garderie/creche. No trabalho, onde preciso falar muito, em pouco tempo e sendo preciso, uso cada vez mais o francês e menos o inglês. Já dá para fazer um seguro por telefone passando por meia hora de perguntas. E o mais importante: Não tenho mais vergonha de falar, mesmo com erros e entraves. Porque se le portê estiver fechê, pule por riba, já dizia o meu sábio avô.
P.S. Se quiser saber o que é o nível avançado de francês québécois, tente entender o que esses bonecos falam: http://www.tetesaclaques.tv/. Se você entender, vai estar muito bem na foto.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
No semáforo vermelho, devemos parar, passar ou reduzir?
Essa pergunta pode parecer idiota, mas é mesmo idiota! Até o Davi já sabe que é para parar no sinal
vermelho! Pois bem, essa é uma das perguntas do teste simulado para exame teórico da carteira de motorista do Québec. Ainda bem que só vi esse teste agora, perto de fazer o exame. Se tivesse o visto antes, não teria lido o livro de preparação. As perguntas do simulado são muito fáceis. Porém, achei o teste real mais difícil.
A Societé de l'Assurance Automobile do Québec ou simplesmente SAAQ, onde fazemos os exames teórico e prático aqui no Québec, é bem grande e movimentada. Tem muita gente sendo atendido por ordem de chegada, com senha, mas no meu caso, eu tinha um rendez-vous/hora marcada. O cara da recepção me disse que iriam me chamar pelo serviço de som na hora marcada, no guichê 22. Esse guichê e outro ficam em uma seção destinada a nós imigrantes, mas com um outro termo o qual não me lembro exatamente.
De fato, pontualmente (como muita coisa aqui no Canadá) às 10h30, uma funcionária foi para esse guichê e chamou: Monsieur Alexi Agüiar (Agu-iar). Agora eu já sei que esse é o meu nome! Ainda bem que quem chamou não foi a moça do guichê 13. Ela chama com um sotaque carregadíssimo de chinês. Não entendia nenhum nome. A funcionária, muito educada e simpaticamente, pediu o cartão de residente permanente, a confirmação de residente permanente (não sei porque, já que para termos o cartão, precisamos ter chegado!), a carteira de motorista brasileira, a sua tradução juramentada e.... adivinhem: O C.S.Q. 'stie!!! Calis!!! Tabernake!!! Pela terceira vez!!!! Só que o comedor de rapadura aqui dessa vez já estava mais maceteado. Falei com ar de advogado que sabe decorado o artigo do código de sei lá o que: Eu fiz o processo federal para Toronto. Nesses casos, um comprovante de residência no Québec é suficiente. A funcionária concordou. Yess!!!! Macete validado!!!
-Voilá le bail/Eis o contrato de aluguel.
-Não é aceito.
-Hydroquébec?
-Sim. Opa! Mais isso é o contrato. Só aceitamos faturas!
-Correspondência do banco?
-Hum....
-Fatura da Rogers?!?!?!?!
-Ahh! Essa é suficiente!
Ainda bem que eu ando bem municiado de papéis. Dá para alimentar uma cidade de traças. Assim como quando fui tirar o NAS, pude optar pelo(s) sobrenome(s) que irá/irão aparecer, já que se tratar de um documento de identidade. Optei por manter o padrão do NAS de usar apenas o último sobrenome, como a tradição local. Fiz um examezinho rápido de vista com uns losangos quadriculados onde tinhamos que responder em qual posição estava o diferente: en haut/em cima, en bas/em baixo, a gauche/à esquerda e a droite\à direita. A mulher explicou bem direitinho.
De lá, fui encaminhado para o guichê 14 para tirar uma foto. Quando nós menos esperamos, PUFFF!!!! Lá se foi o flash e pronto! De lá para a sala de exame.
O exame em "computador" pode ser feito em francês ou inglês. Em papel, tem espanhol, grego, árabe, italiano, e outros, mas não tem português, ao menos aqui em Québec. Coloquei computador entre aspas porque só tem 5 teclas e os desenhos e letras são bem parecidos com o que tínhamos nos primeiros videogames (dá-lhe Atari e Odissey!!!). Tem uma tecla para cada opção de resposta, de A a D, e um V para validar a resposta escolhida, que pode ser alterada até apertarmos o V. Se a resposta for errada, aparecerá um quadro piscando ao redor da resposta correta. São três grupos de perguntas denominados Securité routiére/Segurança rodoviária, Signalisation/sinalização e Spécialisation/Especialização (nem sei de que se trata!). Cada grupo tem respectivamente 16, 16 e 32 questões, podendo errar 4, 4 e 8 questões.
A pergunta de ensaio é safada: Em uma estrada, o que é proibido de ser transportado em uma casa reboque (tipo motor home)?
A) Animais;
B) Inflamáveis;
C) Pessoas;
D) Armas.
O Bom senso acusa logo os inflamáveis e as armas porque são mais ligados a perigo. Porém, a resposta correta é pessoas! Quem disse que tem cinto de segurança para elas em um treco desses?
Bom, quando começou valendo, já errei de cara a primeira questão! Caramba! Começei mal! Vai daqui, vai de lá e errei duas, por isso o primeiro grupo só teve 14 questões, já que não fazia mais diferença responder as últimas duas. Errei também duas no segundo grupo e quatro no terceiro. Pelas minhas contas, exatamente a metade do que poderia errar nas três mas, como não saiu resultado, ainda fiquei de suspense.
Então a funcionária deu os parabéns e disse que eu passei! Uuuhhuuuuu!!!!
Eu li o livro "Guide de la route" todo, que fala sobre as regras de trânsito de uma forma bem detalhada e por vezes, de forma monótona. Já o "Conduire un véhicule de promenade", minha fonte de emprésimos perdeu o rastro dele mas, como duas pessoas me disseram que não o leram e passaram, resolvi fazer o mesmo.
Bem, não existem regras em relação ao que é necessário fazer para passar, logo, não me culpe se não passares! Cada um é cada um. O que eu posso dizer é que o entendimento do texto é muito importante, logo, o idioma ter uma boa influência. Outra coisa importante é o velho bom senso. Por exemplo: Eu via muito nos textos a palavra klaxonner/buzinar. Ora! Se não aparece nenhuma vez no livrão todo, então é porque não é recomendado fazer. Quando uma opção dizia que deveriamos klaxonner, eu já a eliminava de cara. Suspeitei pelo contexo que fosse buzinar e agora confirmei que é isso mesmo. O bom senso me indicou a resposta certa, por exemplo, sobre o que fazer quando o carro derrapa na pista escorregadia por causa da neve ou gelo. Isso deve estar no livro que não li.
No guichê seguinte, mas sempre sendo atendido logo e chamado pelo nome, optei pela carteira de aprendiz porque preciso dela para a tentativa de financiamento do carro (estória longa e que ainda não acabou. Aguardem!). 50$ em papel ou 60$ em plástico. Já saimos de lá com um papel que serve de documento, pois tem o número da carteira. Pelo que a moça disse e para a minha surpresa, a carteira brasileira ainda vai valer até o fim dos 3 primeiros meses.
Agora é marcar a prova prática para o mais cedo possível e mandar bala! Vamos lá que a luta continua.
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domingo, 28 de março de 2010
Arrêt Davi!
Com três dias de escola, já ouvi a Lara dizendo "Arrêt, Davi!/Pare Davi!". Epa! Isso eu não ensinei! Quando perguntei, ela me disse que as suas amigas dizem isso umas às outras durante as brincadeiras no pátio. E logo na segunda semana, começaram as aulas individuais de francês para extrangeiros. É o que se chamam de francisação. Ela disse que a professora usa jogos como o de memória para ensinar brincando. Do outro lado, a professora da primeira série ensina que o som do ô pode ser feito com "au", como em l'eau/a água, ou com a própria letra "o" como em vélo/bicicleta.
Agora em posso ensinar francês a ela em casa também. Ai vocês se espantam: Ué! E você não estava fazendo isso durante esse tempo todo? Não estava, mas tem uma explicação. O professor de francês Ruy, que também é conselheiro e consultor, havia explicado que não valia a pena tentar ensinar francês às crianças em um ambiente não francófono. O que se faz é ensinar palavras por repetição, mas elas não têm nem motivação, nem volume de informação suficiente para inferir as regras do idioma. Por outro lado, uma vez imersos no ambiente do idioma, eles evoluem muito rápido.
Tivemos um caso parecido: o Davi não queria aprender a falar, mesmo com a nossa insistência. Ele ficava sem comer bombons porque não respondia um simples sim e ficava só fazendo ã, ã. Depois que entrou na escola, viu as outras crianças falando e a necessidade da comunicação, e daí foi rápido.
Voltando ao caso da Lara. Os desenhos animados não são suficientes para incentivar o aprendisado, porque são muito visuais. Quando muito, ajudam a "sintonizar" o ouvido para os novos fonemas. Agora que ela passa uma boa parte do dia convivendo com pessoas que falam francês, ela despertou para o aprendisado. E em casa, eu falo primeiro em francês e depois em português. Aqui e acolá faço alguma explicação simples.
Agora é só esperar para colher os frutos.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Torre de Babel
Aquela passagem bíblica da Torre de Babel bem que poderia ter se passado aqui no Canadá. Não vou nem falar do aeroporto de Toronto porque é covardia. Mas mesmo aqui em Québec, que não tem tanto imigrante quanto os grandes centros, ainda ouço muitos idiomas estrangeiros. Mesmo sendo uma cidade fortemente francófona, ao contrário de Montréal, ouço facilmente quando passeio pela cidade gente falando os seguintes idiomas que não o francês, mais ou menos na ordem de frequência: Inglês, português (tem muito brasileiro aqui), chinês, árabe, espanhol, idiomas africanos e outros. Já ouvi de tudo, inclusive idiomas que não dá nem para reconhecer.
Particularmente falando do meu ambiente de trabalho, que não é necessariamente assim em toda a empresa, muito menos nas outras empresas e menos ainda na rua, é uma salada só. E eu adoro isso! A empresa contrata todo mundo com a exigência de falar inglês porque é uma multinacional com sede nos EUA, e temos que saber francês para não passar fome (não basta dizer numero quatre no Mequidonálde para não morrer de fome por causa dos outros nutrientes que precisamos). As teleconferências com os EUA são feitas em inglês, e o software é internacionalizado em acho que 17 idiomas, dando uma boa noção de globalização. Isso sem falar que a empresa é aberta 24 horas por causa dos fuso-horários dos escritórios daqui até a Austrália. Por causa disso, na nossa equipe ao menos, é totalmente indiferente, natural, corriqueiro, transparente, espontâneo, necessário e inevitável misturar inglês, francês e franglish. Às vezes, duas pessoas que nasceram e moram aqui conversam entre si em inglês, sem razão aparente. Ou por causa de uma só palavra que é mais conhecida em inglês, comuta-se para inglês durante o parágrafo todinho e volta-se para o francês. Ou a comutação pode ser feita apenas em palavras. Pode-se ter um diálogo onde um fala em um idioma e outro no outro idioma, etc. e se perguntado, ninguém nem sabe dizer em qual idioma falou.
Pior ainda é o franglish. É quando usam uma palavra do inglês transformada em francês. Isso acontesse muito por causa do jargão de informática. É tão exagerado que até verbos corriqueiros como fermer/fechar acabam virando closer, de to close. Tive que inovar na notação de cores para idiomas por causa disso. E assim nasce o checkouter/to check out, commiter/to commit, fixer/to fix, binder/to bind, etc. Para misturar ainda mais, somos seis brasileiros, dois portugueses e uma canadense. totalizando nove lusófonos! Um deles trabalha ao meu lado. Inevitavelmente, falo os três idiomas na mesma proporção todos os dias úteis.
Os francófonos tem a tendência de não pronunciar o H aspirado. Assim, help soa como êlp, e hire como aire. O indiano tem um L bem enrolado e o português dos portuguêses é bem diferente do nosso.
A empresa, consciente do valor dos imigrantes qualificados e da necessidade de uma boa comunicação, dá um curso de francês de duas horas por semana com um excelente professor da Universidade Laval em horário de expediente.
Em serviços ao público em geral como os governamentais (ao menos os federais), call center, lojas nacionais ou multinacionais e serviços turísticos, é comum termos opção de atendimento em ambos idiomas. Para mim é uma maravilha porque posso praticar o francês e quando travar ou ao menos ficar difícil, comuto para o inglês. Só que já aconteceu de dois vendedores agoniados não quererem perder tempo e passam logo para o inglês porque vêm que funciona melhor. Como também acontece da conversa travar em ambos idiomas quando vai para um domínio específico. Por exemplo: Como é que se chama colcha de cama, fronha, edredon e lençol? Não sei em nenhum dois dois idiomas e vou ter que comprá-los. O desconfortável mas ao mesmo tempo importante é que não tem como eu não aprender porque tenho que resolver vários problemas para começar toda uma vida de uma família usando esses idiomas. É na porrada, mas funciona!
Infelizmente, mesmo eu que sou desinibido, extrovertido e até cara de pau, passo pelo seguinte processo: No começo, temos o referencial do estudo de francês bem articulado e devagar. Daí, começamos a nos virar e contamos vitórias. Depois de algumas conversas travadas por falta de vocabulário ou simplesmente quando não conseguimos entender nada porque na rua falam rápido e displicentemente, começamos a contar algumas "derrotas". Naturalmente, começamos a evitar a exposição e entrarmos em um ciclo de retração. O nível de dificuldade do francês do dia a dia é bem mais alto, aumentando o nosso referencial, então temos a nítida sensação de estarmos desaprendendo. Depois de algum tempo, naturalmente passamos a nos comunicar melhor e começamos a ganhar confiança outra vez. Só tenho pena dos tímidos, porque tendem a ter uma retração mais forte, mas tem que enfrentar. Não tem como!
Bem pessoal, estou com a mania de escrever muito, então, até logo, à bientôt, see you soon, hasta luego.
Particularmente falando do meu ambiente de trabalho, que não é necessariamente assim em toda a empresa, muito menos nas outras empresas e menos ainda na rua, é uma salada só. E eu adoro isso! A empresa contrata todo mundo com a exigência de falar inglês porque é uma multinacional com sede nos EUA, e temos que saber francês para não passar fome (não basta dizer numero quatre no Mequidonálde para não morrer de fome por causa dos outros nutrientes que precisamos). As teleconferências com os EUA são feitas em inglês, e o software é internacionalizado em acho que 17 idiomas, dando uma boa noção de globalização. Isso sem falar que a empresa é aberta 24 horas por causa dos fuso-horários dos escritórios daqui até a Austrália. Por causa disso, na nossa equipe ao menos, é totalmente indiferente, natural, corriqueiro, transparente, espontâneo, necessário e inevitável misturar inglês, francês e franglish. Às vezes, duas pessoas que nasceram e moram aqui conversam entre si em inglês, sem razão aparente. Ou por causa de uma só palavra que é mais conhecida em inglês, comuta-se para inglês durante o parágrafo todinho e volta-se para o francês. Ou a comutação pode ser feita apenas em palavras. Pode-se ter um diálogo onde um fala em um idioma e outro no outro idioma, etc. e se perguntado, ninguém nem sabe dizer em qual idioma falou.
Pior ainda é o franglish. É quando usam uma palavra do inglês transformada em francês. Isso acontesse muito por causa do jargão de informática. É tão exagerado que até verbos corriqueiros como fermer/fechar acabam virando closer, de to close. Tive que inovar na notação de cores para idiomas por causa disso. E assim nasce o checkouter/to check out, commiter/to commit, fixer/to fix, binder/to bind, etc. Para misturar ainda mais, somos seis brasileiros, dois portugueses e uma canadense. totalizando nove lusófonos! Um deles trabalha ao meu lado. Inevitavelmente, falo os três idiomas na mesma proporção todos os dias úteis.
Os francófonos tem a tendência de não pronunciar o H aspirado. Assim, help soa como êlp, e hire como aire. O indiano tem um L bem enrolado e o português dos portuguêses é bem diferente do nosso.
A empresa, consciente do valor dos imigrantes qualificados e da necessidade de uma boa comunicação, dá um curso de francês de duas horas por semana com um excelente professor da Universidade Laval em horário de expediente.
Em serviços ao público em geral como os governamentais (ao menos os federais), call center, lojas nacionais ou multinacionais e serviços turísticos, é comum termos opção de atendimento em ambos idiomas. Para mim é uma maravilha porque posso praticar o francês e quando travar ou ao menos ficar difícil, comuto para o inglês. Só que já aconteceu de dois vendedores agoniados não quererem perder tempo e passam logo para o inglês porque vêm que funciona melhor. Como também acontece da conversa travar em ambos idiomas quando vai para um domínio específico. Por exemplo: Como é que se chama colcha de cama, fronha, edredon e lençol? Não sei em nenhum dois dois idiomas e vou ter que comprá-los. O desconfortável mas ao mesmo tempo importante é que não tem como eu não aprender porque tenho que resolver vários problemas para começar toda uma vida de uma família usando esses idiomas. É na porrada, mas funciona!
Infelizmente, mesmo eu que sou desinibido, extrovertido e até cara de pau, passo pelo seguinte processo: No começo, temos o referencial do estudo de francês bem articulado e devagar. Daí, começamos a nos virar e contamos vitórias. Depois de algumas conversas travadas por falta de vocabulário ou simplesmente quando não conseguimos entender nada porque na rua falam rápido e displicentemente, começamos a contar algumas "derrotas". Naturalmente, começamos a evitar a exposição e entrarmos em um ciclo de retração. O nível de dificuldade do francês do dia a dia é bem mais alto, aumentando o nosso referencial, então temos a nítida sensação de estarmos desaprendendo. Depois de algum tempo, naturalmente passamos a nos comunicar melhor e começamos a ganhar confiança outra vez. Só tenho pena dos tímidos, porque tendem a ter uma retração mais forte, mas tem que enfrentar. Não tem como!
Bem pessoal, estou com a mania de escrever muito, então, até logo, à bientôt, see you soon, hasta luego.
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