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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Nota 10


No trabalho, nós temos uma reunião periódica individual com o chefe. No começo, serve para dar diretrizes de como tudo funciona. Depois, passa a ser uma espécie de feedback bidirecional. No meu caso, rapidamente passou a ser uma reunião de discussão de sugestões de melhoria de processos e ideias novas que tenho. Nessa última reunião, ele disse que estavam muito contentes de terem me contratado porque, além de outros fatores positivos, eu era proativo e contribuia com algo a mais. Isso não me altera muito. Tenho os pés no chão. Mas é bom saber que sou bem visto na empresa.
Mas hoje, na reunião com a professora da Lara, fui pego de surpresa.  Elogio para cá, elogio para lá, e eu continuava indiferente na estória achando que era gentileza da parte dela, que dizia isso para todos os pais. Mas, dentre outros detalhes que provavam o contrário, o mais forte foi o ela contou que disse para a turma toda.
"Crianças, vocês sabem que a Lara está aqui há menos de um ano. Vocês a acompanharam desde quando ela chegou e sabem que ela não falava nada de francês. O boletim dela está cheio de notas altas, mas particularmente em leitura, ela foi a única da turma a conseguir 100%. Isso quer dizer alguma coisa, não?"
Sim. Quer dizer muito! Quer dizer que chegamos aqui cheios de medo, incerteza e assustados com tanta mudança. Mas Deus tem sido tão bom para nós que no Brasil eu não chorava por nada e aqui, acho que é a terceira vez que eu choro. Isso acontece por me preparar tanto para as dificuldades e ser pego de surpresa com esses presentes divinos. Eu não tenho nem como descrever esses momentos. As vezes é até uma coisa boba como ver o sol se pondo enquanto escuto uma música no carro, ver uma árvore dourada do outono, o vento no rosto quando desço a ladeira de bicicleta, etc.
Desculpem o sentimentalismo da postagem, mas imigrar é isso também. Adversidades, provações, mas também superações e recompensas. Que as graças de Deus acompanhem suas caminhadas também.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O petit Antoine vai à escola


Vemos nos filmes e desenhos animados as crianças norte-americanas indo para a escola sozinhas. Não tem nada demais na televisão. Quando vemos a opção no formulário para autorizar a criança a sair da escola sozinha, fica mais concreto, mas ainda longe da realidade.
Mas quando eu vou com a Lara para a escola e frequentemente encontramos o petit/pequeno Aintoine de cinco ou seis anos andando pelo menos cinco quarteirões sozinho, dá uma sensação esquisita!
-Salut, Antoine! Diz a Lara.
O petit Antoine olha para ela, sorri, não dá um piu e continua a caminhar! Quando chega no cruzamento, ele para, olha para um lado, olha para o outro, os carros param e ele atravessa com a maior naturalidade.
Como é que os pais deixam o filho ir sozinho para a escola? Como é que eles têm coragem!? Além dos motoristas respeitarem, ao menos na região próxima às escolas, se a nossa cidade não for a mais segura das de certo porte, é com certeza uma das mais seguras.
Mas mesmo assim, vai que a escola fechou por algum problema como falta de água? Aqui a falta de água é algo muito importante porque se acontecer um incêncio, não tem como apagá-lo. Só pode ter alguém em casa para recebê-lo de volta! Não consigo imaginar deixarem o filho ir para a escola e a casa ficar trancada vazia.
De qualquer forma, eu ainda não teria coragem de deixar a Lara ir sozinha para a escola. Ainda não estamos nesse nível de confiança, embora de vez em quando eu tenha alguns ataques de displicência em relação a furtos. Por exemplo, outro dia quando me dei conta, estávamos há centenas de metros da minha mochia no parque, e a minha máquina fotográfica estava em cima dela. Quando voltei, estava lá, graças a Deus!
Também de vez em quando, saíamos e as janelas ficavam abertas (no verão, claro!) e a porta destravada. Tudo bem! Não é no térreo! Mas fica na varanda a meio andar de altura somente. Eu subo e desço muitas vezes pela varanda.
Ministério da Justiça adverte: Não é certo fazer isso! Se der bobeira, pode aparecer algum voleur/ladrão, porque aqui tem também, afinal, gente é gente no mundo todo.
É um choque cultural ainda esquisito para nós, mas com certeza, bem mais agradável que o oposto quando um canadense vai ao Brasil!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

E as crianças? Como vão?


Para os pais que ficam angustiados com a adaptação dos filhos, vou contar agora como estão os nossos após seis meses de adaptação. Muito bem, obrigado! Claro que não vai ser regra geral e absoluta, mas foi como muitos me disseram: Esqueça a adaptação das crianças que você vai ficar surpreso de ver como é rápida. O problema somos nós adultos (véios!).
Primeiro que criança faz amizade muito facilmente e nem precisa falar. Uma chega para a outra, sorri e sai correndo. A outra responde com outro sorriso e sai correndo atrás! Pronto! Já começou uma amizade! O Davi então, muito cara de pau, conversa com todo mundo que passa em português que às vezes nem nós entendemos. Mas ele não está nem aí. O objetivo dele é que alguém fale algo de resposta e consegue. Também, a necessidade de comunicação das crianças é menos sofisticada que a nossa e só o contexto muitas vezes já diz tudo.
A parte que dá mais ansiedade é deixar a criança nos primeiros dias na escola, como eu escrevi nessa postagem. A Lara adorou a escola e não teve nada que a incomodasse, pelo contrário, ficou até ansiosa para chegar logo o dia no qual ela começaria a chegar um pouco antes e ficar um pouco depois da aula. Porém, ela teve uma recaida na timidez extrema que tinha e que foi magicamente corrigida pela escola Casa de Criança onde ela estudou enquanto estávamos no Brasil. Simplesmente ficou muda durante os três primeiros meses de escola. Antes de entrar na escola, ela passou mais um mês sem muito contato com o mundo exterior. Um pouco disso foi por causa do evento que contei nessa postagem.
Mas, como haviam me contado que acontecera com outra criança, depois desses três meses a mudez acabou. Depois das aulas, não tive mais um pingo de preocupação em relação à sua comunicação quando ela começou o camp de jour/colônia de férias.
Ela já está com a cabeça pensando tão naturalmente em francês que percebemos no português como quando ela diz: "O Davi é lá" (ao invés de dizer está aqui), "Eu vou ir", "depassar na fila", "mais grande", "isso faz mal" (isso dói), "isso é por (pour/para) brincar", dentre muitos outros exemplos.
E a pronúncia? Meu Deus! Bastam três vezes para um fonema novo já sair perfeito! E ainda me faz passar vergonha! "Papai, não é du (U igual ao do português) lait. É DU (com o fonema que mistura o U e o I) lait!", "shhh (je suis em francês québécois) prête! Você quer dizer prêt (pronuncia-se como pré sem o T)? Papai! Eu sou menina! É prête (pronuncia-se prét, com o T)!". Xi!!! Foi mal!!! Sem contar que ela conhece palavras que eu não conheço, e vice-versa. Assim, todo mundo é professor e aluno ao mesmo tempo. Ahh! E já aprende com sotaque daqui! Enfim: O vocabulário ainda não permite falar de forma tão sofisticada e ainda comete alguns errors, mas está falando muito bem. Principalmente para quem tem somente alguns poucos meses de contato com o idioma.
O Davi começou em uma garderie en milieu familiale/creche em meio familiar, que nada mais é que uma mulher de paciência budista que toma conta de até seis crianças em casa. Nada muito interessante para o Davi, já que os outros eram bebês. Para matar o tédio, ele desregulava o aquecimento do apartamento até ficar pegando fogo, destrancava e abria a porta, brincava de pular por cima do bebê deitado no chão (ai meu Deus!) e outras bêtises/besteiras ou bobeiras. Mas ele não gostava porque não tinha nada muito interessante para fazer.
Depois que ele foi para uma garderie grande e que tem estrutura de escola, uma CPE (Centre de la Petite Enfance), mudou tudo, inclusive a nossa dor no bolso! Pagávamos uns 500$/mês e agora só 150$/mês porque ela é subsidiada pelo governo. Nada como ter muita coisa interessante para brincar, com muitos coleguinhas para bater..., digo, brincar! Bom, ele não é o recordista de estrelinhas de bom comportamento na agenda, mas já melhorou muito. Tem dias que a professora começa a escrever assim: "Afff!!!!...". Mas ele está adorando e percebemos no dia a dia que agora ele também está aprendendo francês.
O carinha é uma figura! Muitas vezes quando ele aprende uma palavra em francês, ele substitui a do português e não a usa mais. É tão curioso que ele diz "sim" em português e sempre "non/não" em francês! E às vezes ele faz gozação com quem fala francês e responde com um blá, blu, blé, blô, ... -Davi, o que é que tu está dizendo? "Eu tô falando com ela", apontando para a simpática senhora que pergunta algo a ele. Legal é que outro dia ele disse: Go papa! Go é vai em inglês e papa é papai em francês, que é como ele me chama agora.
A adaptação tem sido quase que puramente ao idioma. As comidas são as mesmas, adicionadas gostosas novidades. Quando ao frio, as crianças sentem bem menos que os adultos e adoram a neve. Parece que a circulação sanguínea deles é mais eficiente. Sinto pela temperatura das mãos. Também, conversando com amigos, dá a impressão que eles adoecem menos aqui que no Brasil. O resto é só festa. Muitos parques, muitos brinquedos interessantes, muita área verde para correr, praia de rio ou de lagoa, piscinas públicas gratuitas, muita área para andar de bicicleta, etc. e ainda com segurança.

domingo, 28 de março de 2010

Arrêt Davi!


Com três dias de escola, já ouvi a Lara dizendo "Arrêt, Davi!/Pare Davi!". Epa! Isso eu não ensinei! Quando perguntei, ela me disse que as suas amigas dizem isso umas às outras durante as brincadeiras no pátio. E logo na segunda semana, começaram as aulas individuais de francês para extrangeiros. É o que se chamam de francisação. Ela disse que a professora usa jogos como o de memória para ensinar brincando. Do outro lado, a professora da primeira série ensina que o som do ô pode ser feito com "au", como em l'eau/a água, ou com a própria letra "o" como em vélo/bicicleta.
Agora em posso ensinar francês a ela em casa também. Ai vocês se espantam: Ué! E você não estava fazendo isso durante esse tempo todo? Não estava, mas tem uma explicação. O professor de francês Ruy, que também é conselheiro e consultor, havia explicado que não valia a pena tentar ensinar francês às crianças em um ambiente não francófono. O que se faz é ensinar palavras por repetição, mas elas não têm nem motivação, nem volume de informação suficiente para inferir as regras do idioma. Por outro lado, uma vez imersos no ambiente do idioma, eles evoluem muito rápido.
Tivemos um caso parecido: o Davi não queria aprender a falar, mesmo com a nossa insistência. Ele ficava sem comer bombons porque não respondia um simples sim e ficava só fazendo ã, ã. Depois que entrou na escola, viu as outras crianças falando e a necessidade da comunicação, e daí foi rápido.
Voltando ao caso da Lara. Os desenhos animados não são suficientes para incentivar o aprendisado, porque são muito visuais. Quando muito, ajudam a "sintonizar" o ouvido para os novos fonemas. Agora que ela passa uma boa parte do dia convivendo com pessoas que falam francês, ela despertou para o aprendisado. E em casa, eu falo primeiro em francês e depois em português. Aqui e acolá faço alguma explicação simples.
Agora é só esperar para colher os frutos.

domingo, 21 de março de 2010

Lara à l'ecole


E mais uma vez a estória se repete. Quarta-feira, 08h15, École Anne-Hébert. Nós vamos deixar a nossa filha em uma escola desconhecida, cheia de gente desconhecida, sem falar nada de francês e ninguém fala português! Perguntei se tinha alguém que falasse ao menos espanhol na turma dela para facilitar a comunicação e acharam uma menina em uma turma bem mais adiantada. Ai, ai, ai! E se ela precisar de alguma coisa? Vai ficar igual surda-muda! Ela vai se isoladar no canto da sala, achando a aula um saco e nunca mais vai querer voltar para a escola! AAAAHHHHHH!!!!!!!
Sabem, né. Pai é pai! (no sentido de pai ou mãe). Quando digo que mais uma vez a estória se repete é porque já tivemos notícias de outros pais imigrantes que passaram por situações parecidas. Não aconteceu nada disso!
Por ironia do destino, a primeira aula da Lara no Québec foi de inglês! Foi bom pois nivelava mais à situação das outras crianças, porque é um ensino de uma língua não materna para todos ou ao menos a grande maioria da turma. Fomos ao refeitório para conversar sobre o almoço. Avisamos que ela não fala francês e a senhora, como todos os demais da escola, foi muito simpática, prestativa e atenciosa. Ela disse que não teria problema. Elas iriam mostrar as opções, pedir para que ela apontasse e usariam gestos. E como tem mais de uma opção e as sobremesas, fiquei mais despreocupado, porque a Lara é muito problemática para comidas. Acho que vai ser a oportunidade de ela ser mais flexível, até porque a variedade de cardápio é muito maior que no Brasil.
De volta à sala, para explicar a ela como iria ser, ela estava lá, bem à vontade e sorridente.
- Olha! A professora me deu esta tarefa e pediu para pintar. Adoro pintar! A tarefa é muito fácil.
Expliquei tudo e ela nem esperou pelo final.
- Tá, tá! Tenho que voltar para continuar a tarefa.
Quando cheguei em casa, ela contou que a aula foi legal, que já tinha feito três amigas e que as outras crianças a receberam muito bem. Disse que faziam muitas perguntas mas ela não as entendia. Ai a Maria, a menina que fala espanhol, avisava que ela não falava francês e dizia o nome dela. Depois de um tempo, as crianças ficaram dizendo "Lara, Lara, ..." em coro. A professora fala francês, inglês e espanhol, o que dá uma boa bagagem para entender os cognatos do português. Eu disse à Lara para, quando precisar, falar em português devagar e bem explicado.
Na quinta-feira e na sexta-feira, ela também disse que gostou, brincou de bonecas com uma amiga, todo dia come alguma coisa, mesmo que eu saiba que não come tudo, mas completa com uma sobremesa.
A parte ruim é que o correto seria ela ter quatro aulas em dias diferente, somente de francês para quem não fala ainda (francês como segunda língua) e somente depois começar na aula normal. Infelizmente, estava demorando muito para conseguir uma professora específica e a coordenação achou melhor ela começar logo. Não é tão grave porque todos dizem que as crianças aprendem muito rápido, mesmo dessa forma. E também, agora ela está finalmente imersa no ambiente francófono e assim, posso começar a ensinar em casa porque agora vai funcionar. Antes, era mesmo que eu ensinar estando no Brasil: não funciona. O nosso professor de francês de Fortaleza já havia explicado isso.
Até o Davi que ainda não está na garderie/creche hoje saiu espontaneamente com um "vatu nuá" (voiture noire/carro preto, pronuncia-se mais ou menos como "vuature nuár'). Estou ensinando a ele as cores e, como ele adora carros, estou usando-os como exemplo.
Ainda não dá para avaliar a escola em outros aspectos, mas a estrutura dela é de escola privada boa do Brasil. E a atenção, gentileza, simpatia, educação e o interesse de todos que trabalham lá não tem comparação. E olhem que é pública e gratuita!