A saga de uma família de retirantes cearenses, comedores de rapadura, rumo à terra onde a Cana dá.
Fortaleza -> Ceará -> Brasil -> Canadá -> Quebéc -> Québec
O projeto de ressuscitar o time de hockey de Québec da NHL, o Nordiques, continua de vento em popa. Tiveram sinal verde para a construção do anfiteatro multifuncional e este vai ser construido no antigo hipódromo de Québec. O projeto foi divulgado na imprensa e ficou muito moderno e bonito. A previsão de término é para o outono de 2015.
Enquanto isso, houve a possibilidade do Phoenix Coyotes ser vendido e dentre as três possíveis cidades interessadas, Québec seria a mais bem cotada. Mas o assunto esfriou e não ouvi mais falarem disso. Daqui para lá, existe a possibilidade do Pierre Karl Peladeau, dono do forte grupo Québecor que vai operar o anfiteatro, comprar um time da NHL para garantir a oportunidade. Isso, mesmo com perda de receita por falta de capacidade e estrutura do atual Colisée Pepsi de Québec para jogos dessa envergadura. Sonhando mais alto que o Mont-Saint-Anne: imaginem uma final da copa Stanley em no nosso anfiteatro pequeno! Viajei agora!
Enquanto isso, até agora os jogadores e times não se entenderam sobre salários e não está tendo nada de jogos da NHL nesta temporada. Falam de 10 a 20 milhões de dólares de prejuízo POR DIA!!!! É lamentável e decepcionante. Todo mundo está perdendo. Daqui a pouco, a temporada toda vai se tornar inviável e pela segunda vez na história (ao menos que eu saiba), a temporada vai ser cancelada. Tomada que tenha ao menos uns joguinhos, senão teremos que esperar a próxima temporada.
Ontem foi o sétimo, último e decisivo jogo da série final da copa Stanley, como comentei nessa postagem. Eu fiquei muito decepcionado com o Vancouver Canucks, que começou a série ganhando os dois primeiros jogos do Boston Bruins. Mas ontem, eles não estavam se esforçando muito. Começaram não prestando atenção e três jogadores na defesa permitiram que o único do Bruins ficasse livre para fazer o gol. E para piorar, eles permitiram o absurdo de levar um gol enquanto estavam em superioridade numérica, que significa passar dois minutos com 5 jogadores deles contra apenas 4 do Bruins por causa de uma penalidade. Levar gol nessa situação acontece, mas não é normal.
No final das contas, o Bruins acabou merecendo levar a taça com uma vitória de 4 a 0. O goleiro, Tim Thomas foi a atração principal, fechando muito bem a trave. Não era o que eu queria, mas reconheço que foi justo.
Eis onde entra o cachorro na história. Após o jogo, os 100.000 torcedores do Canucks que estavam nas ruas, mais os que estavam no anfiteatro começaram a ir embora. Porém, um grupo de vândalos começou a fazer besteira. Viraram, amassaram e atearam fogo em alguns carros, quebraram vidraças, dentre outras irresponsabilidades.
Pior que isso, alguns chegaram a espancar torcedores do Bruins. Isso no Brasil é comum, mas aqui é um absurdo sem tamanho. Só para terem ideia, me contaram que um comediante entrou em um bar de torcedores do Canadiens com a camisa do time adversário, ficou torcendo contra eles aos gritos e chegou a desligar a televisão. O que aconteceu com ele? Somente ouviu umas poucas vaias. As torcidas se misturam sem atrito, antes durante e depois dos jogos.
O que mais me revolta é que era uma manifestação sem propósito, nem ideologia, nem mesmo raiva ou frustração. Muitos estavam somente se exibindo, rindo e aparecendo para fotos. São tão infantis se vangloriando da sua transgressão que publicaram as próprias fotos e comentários do que fizeram em sites de redes sociais. Por outro lado, a polícia que diga-se de passagem, respeitou demais e agiu de menos, criou uma página na Internet para receber fotos e denúncias desses infratores. Veja os vídeos e fotos do Canoe da baderna. Senti vergonha por esse evento.
Isso mostra que gente é gente no mundo todo, com suas qualidades e seus defeitos. Eu uso demais essa frase, por isso introduzo aqui outra que é "cachorro morde". Tem cachorros mais mansos, adestrados e outros mais bravos, mas todos têm sua natureza animal que uma hora pode aflorar e deixá-los violentos.
Em compensação, o que me comoveu profundamente que não esperava e que não imagino ver no Brasil foi o que aconteceu no dia seguinte. Os moradores da cidade organizaram-se via Internet e mobilizaram-se para arrumar e limpar a bagunça. Olhe, não deve ter sido nada fácil limpar a maré de estilhaços de vidros. E ainda fecharam provisoriamente as vitrines quebradas com táboas de madeira.
Ainda não tinha visto as fotos desse grupo e somente as vi agora nesse site. Sinceramente e sem exageros, me encheu os olhos de lágrimas quando li as mensagens que escreveram nessas táboas pela pura expressão humana de amor à sua cidade e de respeito ao próximo:
"Em nome do meu time e da minha cidade, sinto muito!"
"Eu amo Vancouver, eu amo Boston, eu amo a equipe de limpeza do tumulto de Vancouver. A noite passada não é o reflexo de Vancouver. Hoje é! Parabéns vencedores da copa Stanley"
Isso sim é uma manifestação espontanea de sentimentos nobres e que valem muito para mim. Não apaga nem recupera o estrago de ontem, mas dá um exemplo sadio de atitude contrutiva e altruísta. Parabéns ao Bruins e aos voluntários amantes de Vancouver.
Assim como o futebol no Brasil, o hockey (ou mais precisamente, hockey sobre o gelo) é a paixão nacional aqui no Canadá. Não é para menos, afinal, esse jogo é originário daqui mesmo. Eu me identifiquei logo de cara com o esporte por causa do seu dinamismo e velocidade extremos. Não tem embromação! É ação durante todo o tempo de jogo, garantida por vinte jogadores que se revesam o tempo todo (fora os dois goleiros reserva), normalmente sem interrupção, para ter apenas cinco no gelo.
Aconteceu de eu chegar aqui bem na época das olimpíadas de inverno de 2010 em Vancouver. Fui logo premiado com duas finais de hockey Canadá versus EUA das quais, tanto a equipe masculina quanto a feminina do Canadá levaram a medalha de ouro, para frustração dos estadunidenses obcecados por vitórias.
Mas o que move realmente a vida do amante de hockey é a Ligue Nationale de Hockey (LNH)/National Hockey League (NHL)/Liga Nacional de Hockey (LNH). Começa em setembro, por ocasião da temporada de exibição, seguido da temporada regular, de outubro até o meio de abril. Os times selecionados nessa fase vão para as series éliminatoires/playoffs/séries eliminatórias, que são as quartas de finais, semi-finais, finais e a grande final do campeão da conferência oeste contra o da conferência leste.
Essas séries são mais emocionantes. Quem ganhar a melhor de 7 jogos passa para a outra fase, enquanto que o perdedor é eliminado. Quem ganhar 4 jogos garante a série, logo, esta pode ter entre 4 e 7 jogos. Não tem empate. Se o jogo não for decidido nos 3 períodos regulares de 20 minutos, este segue com prorrogações de 20 minutos até que alguém faça um gol, que é a morte súbita.
O time que Québec tinha na LNH, o Nordiques, foi vendido em 1995, mas estamos caminhando para tê-los de volta nos próximos anos. Na falta dele, o time mais próximo é o que teve mais campeonatos ganhos, com quase o dobro do segundo lugar, o Canadiens de Montréal. No ano passado, dentre os 6 times canadenses de um total de 30, o Canadiens foi o que foi mais longe nas séries, sendo eliminado na final da conferencia leste. Lembro que tinha muita comemoração em Montréal a cada vitória e mesmo onde trabalho, as pessoas comentavam muito e vestiam a camisa.
Nessa temporada, infelizmente eles foram eliminados mais cedo, mas temos outro representante para torcermos que já ganhou a série final da conferencia oeste, o Vancouver Canucks. Exatamente hoje começa o primeiro jogo da série final entre as conferências, jogando contra o vencedor do leste, o Boston Bruins.
Então, vamos acompanhar as emoções dessa série final Canadá versus EUA e torcer para que tenhamos motivos para comemorar. Go Canucks go!
Mas tenha vergonha, fã de hockey frajuto! Como é que assiste a um jogo de hockey ao vivo somente depois de 9 meses! Bom, Quando cheguei, tinhamos muitas coisas para resolver, a rotina era muito cansativa, nem sabia onde ficava o Colisée Pepsi, achava que tinha que pegar dois ônibus, ir sozinho, etc. Quando a vida se estabilisou mais, acabou a temporada de hockey.
Passado o verão e recomeçada a temporada, ainda estava assistindo só pela televisão, mas já não tinha desculpas. De uma só vez, todos os elementos favoráveis aparecereram do nada. O colega de trabalho Cristiano me deu dois bilhetes para o jogo do Remparts de Québec, a torre de comando autorizou o voo (cujo circunflexo caiu, a exemplo de alguns aviões) e o amigo Eliomar topou ir comigo na hora. Perfeito! Valeu pelo patrocínio, Cristiano! Valeu pela companhia, Eliomar!
Infelizmente, o time daqui de Québec, o Remparts, é um time da LHJMQ (Ligue de hockey junior majeur du Québec), porque o time de Québec que participava da Liga Nacional de Hockey (LNH ou NHL), o Nordiques, foi vendido em 1995. Estão tentando ressuscitá-lo, mas para isso, o primeiro passo seria derrubar o Colisée Pepsi, que é considerado pequeno e
velho, para construir um com capacidade adequada e multi-funcional para ter rentabilidade viável. O governo federal disse que banca a obra, mas não tudo. Tem que ter sou (no linguajar popular, quer dizer um centavo, centavos e também dinheiro, equivalente a "pratas" em português) privado também.
De qualquer forma, isso não tira a emoção de ver a torcida fazendo barulho, as musicas de incentivo e as porradas da rondelle/puck (o que chamamos de bola, mesmo sendo um cilindro mais largo que alto) na proteção de acrílico.
Siga só a sequência de filme. Rondelle no campo de defesa do Remparts. Eles avançam em direção ao gol do time adversário. Meu instinto aranha dispara! Opa! Vai ser o primeiro gol, eu estou sentindo! Tiro a máquina do bolso, ligo, espero a inicialização (e o time avançando), aponto, ajusto o zoom, (e o time tocando a rondelle no campo de ataque), apressadamente, giro a chave para o modo de vídeo, aperto o botão e pronto: está gravando! Poucos segundos depois....plaf e GOOOOOLLLL!!!!!! Eu sabia!! Eu sabia!!! Uhuu!!!! E de quebra, ainda estou gravando o gol para meus leitores do... epa! O visor está escuro! Por que?!?! IDIOTAAAAAA!!!!! Eu apertei o botão de desligar ao invés do botão de começar a gravar!!! calvaire!!!(palavrão québécois). Religuei às pressas e gravei ao menos a comemoração APÓS o gol.
Me desculpem, torcedores de futebol, mas eu nunca gostei desse esporte. Mesmo se gostasse, não teria coragem de ir a um estádio com a violência que se passa nos jogos. Por outro lado, além de eu me tornar fanzão de hockey, é muito agradável ir assistir um jogo. Respeito total, mesmo quando tem torcedores de um time se manifestando isolados no meio dos torcedores do time adversário. Vai gente de todas as idades, desde bebês de colo até senhores de idade e senhoras torcedoras fervorosas, como as duas que estavam na nossa frente. O ambiente é tão agradável que nem faz frio, nem calor, ao menos onde estávamos!
Fico imaginando final de Copa Stanley no Centre Bell de Montréal, com a barulhenta e enérgica torcida do Canadiens respondendo à mensagem do painel que circunda a arquibancada: faites du bruit/façam barulho. Talvez eu ainda assista uma partida dessas, talvez até uma do Nordiques, caso consigamos tê-lo de volta. Mas por enquanto, com uma vitória de 4 a 1 sobre o time de Prince Edward Island, me diverti bastante gritando Let's go, Remparts, let's go!! Vamos lá, Remparts, vamos lá!! Clap, clap!! Epa!! Porque não é allons y ao invés de let's go?! Bem...saladas de país bilíngue. Normal!